Blog de Sílvia Cult


Banalização da incompetência

                                              

                                                                                    

                     Enquanto teóricos e cientistas sociais proclamam um futuro excludente para aqueles que não estudarem, aperfeiçoarem-se ou ainda alçarem o patamar de excelência naquilo que se propõem a executar, no renitente cotidiano que nos abraça o painel que se avista está bem longe desse modelo de primazia e competência. O que temos, a bem da verdade, é um número significativo de pessoas que trabalham mal, muito mal, executando suas tarefas sem esmero, vontade, atenção e responsabilidade. Trata-se, ademais, de uma realidade que assusta justamente por se questionar, em pleno século 21, como ainda é possível se renegar os direitos do consumidor em um sistema capitalista que funciona justamente por que estipula um preço: tudo tem seu valor.

                 No Brasil, a passionalidade tem efeitos nefandos que beiram o surrealismo. Recentemente, um cliente de TV a cabo, ao ligar para sua operadora a fim de reclamar direitos e pedir o mesmo desconto anunciado para novas adesões, teve uma surpresa: na conta de cobrança do mês, viu, no lugar em que deveria constar seu nome, a denominação "Otário Chorão". O resultado de tal descalabro é que o personagem em questão ficou chocado, veio à mídia, mas exigiu somente que a empresa lhe pedisse desculpas, evitando-se que um mesmo procedimento se repetisse.  O quê? Um consumidor é desrespeitado, humilhado, aviltado e exige "apenas" pedido de desculpas? Sim, em território nacional parece que somos mais compreensíveis com o erro alheio. Aliás, não é raro ouvirmos de alguém que é "melhor esquecer" quando passamos por alguma desventura que nos tire do sério quando em jogo está o atendimento comercial. Soma-se a isso, sem dúvida, a pecha de uma justiça lenta, ações indenizatórias que se arrastam por anos e resultados pouco satisfatórios que acabam por esmorecer resoluções mais rígidas no sentido de processar empresas que pecam no exercício do atendimento ao público. Nesse instante, é de se invejar os procedimentos adotados por nações desenvolvidas, em que o temor das empresas diante daquele que consome seus produtos é algo real, pois as resoluções em prol do consumidor procedem.

                Em restaurantes, garçons escutam nosso pedido desatentamente e nos trazem algo que não solicitamos; em supermercados, caixas reclamam da vida (e do horário de trabalho) enquanto nos atendem;  nas lojas de shoppings, contamos com a boa vontade de vendedores que podem ou não ir com nossa cara. Taxistas mal humorados, motoristas de ônibus embrutecidos, operadores de telemarketing estressados. Quantas vezes temos a sensação de que estas pessoas estão nos fazendo um grande favor a nos dignificar sua atenção? O serviço de delivery costuma ser a tormenta dos consumidores: atrasos infinitos, pedidos trocados e a culpa sempre jogada nos ombros dos "terceirizados". A arte da falta de iniciativa impera: à emprega pede-se que varra o chão, e ela o fará, e apenas isso, sem a observância do móvel empoeirado à sua frente; à manicure não interessam novas técnicas, aprender outras abordagens, extrapolar o exercício que labuta, mas sim reclamar do que ganha, do trabalho a cumprir, da vida sem perspectivas. A atendente do consultório não irá levantar para ajudar alguém a abrir a porta, pois passos a mais fora da área circunscrita ao balcão de atendimento não fazem parte do seu contrato de atuação.

                  Necessitar de prestadores de serviço de todos os níveis, pedreiros, marceneiros, ceramistas, pintores, costureiros, técnicos de toda sorte... quem já não passou pela  via-sacra das lamentações? Trata-se de uma realidade que impera e atormenta quem contrata e paga; numa ordem inversa, somos nós os preteridos. Ao telefone, mentiras e delongas, e o consumidor em nível de estresse elevado ao constatar o imbróglio em que se meteu. Na sociedade que queremos e com a qual sonhamos, bastaria cada qual realizar bem suas tarefas, dignificadas pelo empemho da superação, o que o ícone competitivo exige; mas estamos bem longe de tal ideal, pois o quadro que se observa ainda é o do "levar vantagem acima de tudo", seja lá o que signifique.

                O fato é que não são poucos os casos de incompetência que atravancam nossa existência em um dia a dia afeito a intempéries. Em colégios, alunos estudam mal e porcamente para se livrar daquilo que os perturba: as tarefas escolares. Esquecem material de aula, menosprezam professores, são indolentes e insolentes a um mesmo tempo, não se interessando por explicações nem quando, obliquamente, dizem respeito à  área em que pretendem atuar. Tudo é chato e cansativo para aqueles que não entendem como as horas podem passar tão vagarosamente em uma sala de aula; engraçado se observar, em um futuro próximo, serem justamente esses que estarão, em sociedade, nos chamados postos de atendimento, exercendo as ocupações que, afinal, não lhes exigem grande qualificação__ os mesmos que irão reclamar, sub-repticiamente, do patrão, dos horários e do salário. Ah, é melhor aprendermos o quanto antes, a vida não poupa os incautos e costuma usar de grande ironia na hora do acerto de contas.



Escrito por Sílvia Abrahão às 21h10
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Maioridade penal: idade da razão

                                         

                                          Em meio a um surto de violência que arrasta o país para posições de destaque em rankings internacionais, mais uma vez a discussão sobre a diminuição da maioridade penal em terras brasilis vem à tona. Vozes dissonantes argumentam utilizando-se cada qual da primazia de suas certezas, mas o fato é que a cada novo crime brutal, cujo protagonista é um menor com arma na mão e máscara de destemor, temos a impressão de que o quadro vigente se perpetuará, atirando-nos à face uma desesperança renitente a nos consumir sem trégua.

                                São muitas as opiniões embutidas em julgamentos conservadores quando em foco está uma mudança significativa na lei que acoberta o delinquente menor de 18 anos. Dentre as muitas teorias, encontra-se a que justifica a superlotação dos presídios como motivo dos mais auspiciosos para se evitar o encaminhamento do menor após a prática de crime hediondo. Então, por estarem as cadeias com esgotamento máximo, minimiza-se a atitude criminosa? Perdoa-se uma ação de descalabro? Outra concepção, talvez ainda mais difícil de aceitar, é a que concerne à ideia de que, punindo-se o menor de idade__ se preso aos 16 anos__ iria se começar no país uma escalada rumo à ilegalidade aos 15 ou 14 anos, cientes os meliantes de que, aí sim, escapariam das garras da lei. Em suma, uma antecipação social da bandidagem. Trata-se, seguramente, de um  ideal difícil de se prever (não impossível que ocorra em algum número, obviamente), até por se entender que quanto mais jovem o cidadão, mais dependente do seio familiar, menos força individual, e daí a migração das práticas criminosas à pré-adolescência parecer algo bem menos comprovável.

                                Será mesmo que alguém ainda acredita que um jovem de 16 anos seja uma inocente criatura? Que pouco sabe da vida? Que é frequentemente influenciado por terceiros, sem opinião própria? Bem, esse não é o painel que se avista dia dia em colégios, shoppings, baladas noturnas, qualquer lugar frequentado por hordas de adolescentes. Donos de informação inconteste, como jamais se imaginou existir em épocas idas, ases na internet, companheiros de seus celulares de múltiplas funções, zoadores em potencial contra tudo e todos, reis da arrogância e do sarcasmo, muitos parecem bem longe do perfil de inocência que alguns insistem em retratá-los. O que temos são jovens autossuficientes, prontos a contestar seja lá o que fira seus princípios individualistas, repletos de indolência. À sociedade, sobra se proteger dos infortúnios desses pequenos ditadores com as possibilidades que a cobre, já que o Estado nesse sentido se furta de seu papel, lançando-nos todos a um mar de exiguidades. Filho morto com um tiro na cara, ao chegar em casa, por conta de um celular?  Filho ferido com lâmina ao atravessar a rua, porque alguns jovens o imaginaram gay? Filho assassinado ao proteger a namorada, que estava sendo assaltada em alguns tickets de transporte? Em comum, todos crimes cometidos por menores, tragédias que se multiplicam pelo país, causando revolta, indignação e cada vez mais raiva contra leis estúpidas que dilaceram a justiça dos homens de bem.

                         O Estatuto da Criança e do Adolescente, sabemos, protege o menor a qualquer sinal de desagravo social. Mais que isso: desculpa-o. Retira-lhe qualquer traço de delinquência no cometimento de um crime hediondo ao chegar à idade adulta. Na prática, o infante fica três anos detido em instituições de "recuperação", e, ao sair, tem nome limpo, liberdade, identidade ilibada, caminho aberto para seu trânsito altivo em ruas e avenidas das cidades brasileiras. Um privilégio difícil de se ver em outras nações mundiais. Nos Estados Unidos, conforme o caso, crianças de nove anos podem ser presas; na Europa, em países mais desenvolvidos, a exemplo da Alemanha, França, Inglaterra, a idade varia de oito a 15 anos, e na Holanda, aos 12 se vai para a cadeia; China e Japão, 14 anos. Enfim, para os que acham absurdo o encaminhamento de jovens de 16 anos à prisão para pagar como gente grande pelos suas atrocidades, o mapa mundial da criminalização deve surtir algum impacto, nada contudo que não possa ser esvanecido à lembrança das crueldades cometidas por estes seres humanos.

                          Diante de um quadro de tantas problemáticas, a exemplo da educação, saúde, a segurança pública é só mais uma que requer mudanças em suas matizes. A massa populacional é unânime quanto à exigência de novas legislações, de Propostas de Emenda à Constituição, um maior comprometimento com a proteção de quem merece ser tratado pelo Estado de forma diferenciada. São trabalhadores assalariados assaltados em ônibus a caminho de casa; estudantes coagidos pelo medo ao transpor os portões das escolas; mães em desespero ao não conseguir notícias de seus rebentos que saíram para se divertir, à noite, com os amigos. Não há distinção de valores, nem limites a serem respeitados. Ou o País aproveita o atual momento de protestos absolutos e revê paradigmas, ou novamente perderemos a oportunidade de melhorar o descalabro que vivenciamos. Caso um plebiscito fosse instituído, e o povo pudesse optar espontaneamente pela diminuição ou não da maioridade penal, veríamos uma multidão indo às ruas em marcha pela criminalização aos 16 anos. A Nação escutaria o clamor daqueles com ânsia de gritar o que há muito está entalado em suas gargantas: punição para quem merece. Resta aos nossos políticos o bom senso de atender àqueles que os perpetuam no poder. A hora é essa.



Escrito por Sílvia Abrahão às 21h25
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Adoção: o impossível não está longe

                      

                                                                                      

                                      Em um país conservador, que ainda refuta a quebra de paradigmas convencionais, é digna a decisão do Supremo Tribunal Federal no que tange a possibilidade de constituição do núcleo familiar por casais homoafetivos. Fato este que colhe os louros de inúmeras benesses sociais para pessoas que, ao longo de uma existência, foram vítimas de intolerância atroz. Contudo, é inegável que um longo caminho à frente anseia ser percorrido a fim de dimensionar as vantagens para casais do mesmo sexo, a exemplo da adoção de crianças, que ainda depende da autorização do juiz responsável pelo processo.

                       Ademais, avistamos muito preconceito quando o assunto recorre à escolha de casais gays pela adoção. Apesar da nação conviver com o estigma da pobreza e do abandono de milhares de pequenos, o fato de alguns destes serem encaminhados a lares onde os parceiros são homossexuais gera estupefação e destrato. Alega-se que tais pessoas não teriam condições plenas para educar uma criança justamente por que esta não conviveria com pai e mãe  (e sim dois pais ou duas mães), sendo excluída das ações de particularidades que emanam de um casal comum. Ainda: os responsáveis, no caso, iriam influenciar os filhos à opção pela homossexualidade, já que seria este o quadro avistado em casa todos os dias, conduzindo-os à ideia de "normalidade" de tal relacionamento. Aqui, a incoerência é especialmente visível, uma vez que a maioria dos jovens homossexuais é oriunda de lares estruturados sob a égide heterossexual.

                        Sem dúvida, há algo de realista na acepção de que crianças poderão ser marginalizadas no ambiente escolar (e de lazer) ao não ser representantes de uma família "formal". Em festas como "Dia das Mães" ou "Dia dos Pais", o retrato que se pinta é, de fato, em um primeiro momento, esdrúxulo: duas pessoas do mesmo sexo fazendo idêntico papel. E como deifini-las? Como chamá-las? Afinal, como rotulá-las? Não nos enganemos ao acreditar que todas as crianças são inocentes e livres dos ditames de um mundo maculado por símbolos de desrespeito e crueldade. Não são. Nunca foram. Crianças são reflexos de sua educação, da sociedade em que vivem, dos símbolos midiáticos que as abraçam. Isso significa dizer que podem ser extremamente cruéis, e os motivos para isso são inúmeros, basta negar-lhes o senso de conforto que as cobre. Daí fica a pergunta: teremos sempre que poupá-las dos "estranhamentos" ou, ao contrário, cabe-nos educá-las para um convívio repleto de diversidades?

                        Bem, as respostas são coniventes com as ações, e aí entram os progenitores e seus valores pessoais. Ao mesmo tempo que nos acostumamos com novidades na área da tecnologia, do mercado de trabalho, no entretenimento, na ciência, também estamos aptos a entender as mudanças no que diz respeito à existencialidade. Hábitos mudam; surgem novos conceitos morais, novas opções de estilo de vida, e a modernidade cobra uma definição. Por vezes, a aceitação social pode não surgir de imediato, prolongando-se indefinidamente,  mas__é inegável__ninguém consegue barrar o progresso; não se freia o trem desgovernado do desejo por transformação. Aqueles que negam compreender as necessidades alheias sofrem e fazem o outro sofrer.

                        Historicamente, é comum depararmo-nos com ações de intolerância que atravancam a plenitude das escolhas daqueles que ousam transgredir o senso comum. Apesar do número excruciante de crianças abandonadas (estimativas apontam, em território nacional, mais de 80 mil), é lamentável observar os trâmites burocráticos e a ausência da legalidade que impedem a adoção dos infantes por companheiros do mesmo sexo. Cabe ao país abrir a discussão de forma a conseguir estender o debate dessa questão a uma esfera maior, em que a sociedade (mesmo contra) seja informada sobre as possibilidades e condições da adoção, fazendo com que o assunto não seja escamoteado ou tratado de modo indiferente. A adoção nessa conjuntura existe, casais gays já foram agraciados com seus pequenos e o mundo não parou. O cotidiano ruma impávido, repleto de ações prosaicas a atirar à face dos desafetos que é possível existir uma forma de felicidade que não é, exatamente, aquela que se imagina única ou absoluta, muito menos convencional.

                        Os valores para a construção de um caráter digno, respeitoso, podem ser observados em famílias compostas por indivíduos íntegros, trabalhadores, fraternos, sensíveis a dor do outro, o que independe de opção sexual. Propiciar a uma criança órfã a chance de compartilhar sua vida com aqueles que a escolheram para amar, é, sem dúvida, a melhor resposta aos insatisfeitos com a sexualidade alheia.



Escrito por Sílvia Abrahão às 00h53
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Amor ideal

                                                                                                         

                                                   Não são poucas as mudanças de valores observadas no que tange ao comportamento do ser humano no atual milênio. Comemora-se o fato do indivíduo apresentar-se mais livre diante de suas escolhas no campo pessoal; na ótica dos relacionamentos, os parceiros não mais são definidos pelas famílias, como em épocas idas, nem o amor parece sofrer com as antigas convenções. Envolvimentos homossexuais pouco surpreendem, a mulher ganha independência e assume-se protagonista de seus anseios afetivos, casais se separam sem grandes celeumas ou traumas existenciais. Mas será que essa liberdade amorosa nos faz mais felizes?

                                    É inegável que o mais ímpar dos sentimentos possua lá suas idiossincrasias. Já disse Blaise Pascal que "o coração tem razões que a própria razão desconhece", o que pode ser averiguado em relações que primam por contrastes étnicos (e por que não, estéticos), religiosos, intelectuais e ainda assim sobrevivem impávidas. O figurino do politicamente correto, com a primazia de um conto de fadas, não parece valer para o terreno amoroso, no qual cada um produz as próprias regras. A legalização da união civil de casais homoafetivos, a fim da  constituição do núcleo familiar, no país, corrobora o fato de que as pessoas estão assumindo com muito mais galhardia e coragem suas necessidades emocionais, o mesmo se comprovando com a observação auspiciosa de relacionamentos entre mulheres maduras e homens mais jovens (algo inimaginável em décadas passadas), além do crescimento do número de divorciados que partem para novas relações bem-sucedidas, sem temor de reproduzir os vícios e falhas cometidos anteriormente, muito menos descrentes do exercício afetivo. Tal quadro apenas ratifica a ideia de que o ser possui ânsia de amar, independentemente da época que vivencia.

                                   As relações efêmeras, por vezes concebidas durante encontros fortuitos em baladas noturnas, ou na internet, são símbolo de uma sociedade movida à pressa, algo inconteste no painel que se contempla. Há sempre urgência para a realização de algo __ que pode ser o desejo sexual, a aquisição de um bem, o sucesso profissional ou o usufruto do lazer. Queremos "para ontem" o objeto dos sonhos, e da mesma forma a pessoa. É claro que o atropelamento de etapas pode trazer consigo entraves que à frente se revelarão perniciosos; conhecer o parceiro superficialmente não parece bom presságio no que concerne ao ideal de uma relação duradoura. Ademais, o que define o amor e o tempo de amar? Qual a diferença entre o amor e a paixão? Esses são questionamentos que há muito a humanidade se faz, e a ciência vem a nosso socorro com explicações que podem ajudar a separar o sentimento onipotente da admiração do simples (simples?) desejo carnal__ para alguns teóricos, este último é uma patologia com data marcada para findar.

                                   Se hoje vivenciamos tantos exemplos de relações livres, protagonizadas por homens e mulheres destituídos de pudores quaisquer que sejam, se adolescentes fazem sexo com a anuência dos pais, se a mídia vulgariza o ato sexual, banalizando-o à quintessência da promiscuidade, deve ser maior a preocupação com o âmago do sentimento amoroso, e a plenitude desse valor; é preciso que se encontre espaço para o romance em meio a permissividade manifestada no cenário social. E demonstra-se, surpreendentemente, que esse espaço existe, ou tem potencial para tanto. O fato é que a indústria editorial e cinematográfica continuam a produzir seu manancial edulcorado, e a audiência de milhões de jovens, a exemplo de sagas como Crepúsculo (e por tabela a reedição do clássico O morro dos ventos uivantes) comprova que o amor singelo ainda tem lugar nos corações humanos, até mais do que poderíamos supor. Em uma era de tantas permissões, o laço afetivo é o sonho de muitos. Fenômenos como o "ficar" (troca de intimidades sem compromisso sentimental) perdem terreno para o namoro, cada vez mais ganhando fôlego entre adolescentes. Trata-se de um retrocesso? Uma postura antiquada? Talvez. O fato é que as relações humanas são cíclicas, alternando períodos de explosão liberal a um conservadorismo iminente.

                                   A onda retrô ou vintage que se avista em bailes de debutantes, formaturas, casamentos românticos e até cerimônias que celebram a união de casais homoafetivos (que surpreendentemente parecem preferir o modelo tradicional, revelando insuspeito conservadorismo) identificam o apreço por um universo romântico que contrasta com uma liberdade escancarada e paradoxal. É nesse instante que muitos se revelam, afinal negar o clichê amoroso apenas por temor de parecer ultrapassado ou inadequado em um meio social que nos atira à face, todos os dias, que só seremos bons se formos "modernos", pode ser um golpe desferido pelo próprio destino. Que viva, pois, a autenticidade daqueles que assumem suas carências e seu desejo de amar. Negar a própria essência, atropelar vicissitudes, é o caminho certo para o autoaniquilamento. Além de tudo, o amor nunca sai de moda e continua imperioso, mesmo à revelia dos pessimistas ou desesperançosos.

                                   Escritores, poetas, artistas. De músicos a cineastas, não é pequeno o número de obras produzidas a reverenciar o amor. Louco, passional, contido, tímido, esse sentimento faz parte da índole humana tal qual a necessidade de comunicar-se, alimentar-se, vestir-se. Frutos de uma sociedade que nos instiga a sermos par, e não ímpar, rejeitamos a solidão como a uma moléstia que destrói mais que a companhia indevida. Aliás, quadro este lastimável, pois a escolha insensata cobrará a alta conta do infortúnio, a qual deverá se paga apenas pela vítima que, ironicamente, estará mais só do que nunca. Cabe-nos, logo, ter serenidade diante da arte de amar; não devemos sucumbir à armadilha da falsa felicidade propagada pelo modelo de relações meramente estetas, em que inexistem respeito e companheirismo. Urge admoestar relações inócuas, repletas de símbolos materialistas a servir de parâmetro para uma população confusa diante do painel de valores contrastantes que a abraça; há de se encontrar, enfim, não o parceiro ideal a um universo repleto de leis de conduta hipócritas, mas ideal a si, e a própria condição humana.



Escrito por Sílvia Abrahão às 21h05
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Facebook é culpa nossa

                                                                                

                                                                                       

                                                 Não é surpreendente o fato de os brasileiros serem afeitos às novidades tecnológicas, o que pode ser comprovado pelo sucesso de fenômenos como Orkut, Facebook e Twitter. Nossa inclusão digital, ademais, caminha a passos largos (pesquisas apontam, no país, dois computadores por habitante) e comemoram-se marcas extraordinárias de usuários conectados às redes. Há de se lembrar da vinda do turco Orkut ao Brasil quando por essas plagas se atingiu o recorde mundial de inscritos no site homônimo; já no que tange à invenção de Mark Zuckerberg, por sua vez, ocupamos a terceira posição no globo, perdendo para Estados Unidos e Índia. É algo digno de estudo essa nossa idolatria por espaços em que interagimos socialmente, marcando presença como lobos pensantes; sim, amamos ver e ser vistos.

                                No Facebook, uma profusão de inutilidades egocêntricas estragam o panorama das boas observações, dos links sugestivos, das críticas oportunas e da troca inteligente de informações. Até chegarmos ao oásis edificante daqueles que valem à pena, há um caminho árduo de idiotices a atravancar o percurso. São fotos de pratos de comida antes de serem degustados, caretas de naipes os mais variados, propagandas de cosméticos, explosões sensuais (ou que assim imaginam ser seus retratados ), poses antes, durante e depois de eventos que só interessariam, à luz da razão, aos seus protagonistas; toda sorte de invencionices, aforismos, máximas e frases filosóficas possivelmente deturpadas pelos fantasmas da net. Enfim... haja paciência.

                                 Por que adicionamos pessoas para fazer parte de um rol de intimidades se não lembramos direito quem são? Por que as aceitamos? Por que compartilhar algo com quem não nos traz qualquer lampejo que seja de motivação, afetuosidade, aproximação? Seria a necessidade da expansão do número de "amigos" registrado no nosso perfil? Talvez para alguns seja sinônimo de prestígio ou status estar acompanhado de um tsunami de camaradas virtuais, mas o que se observa, a bem da verdade, é  uma falta de senso generalizada.  Há ainda, impossível omitir, um certo constrangimento em se negar um pedido para "amizade" piscando sorrateiramente ao alto de nossa página na rede. Não aceitar significaria uma rejeição? Um sentimento de indiferença? Uma medida subliminar a traduzir desprezo ou desinteresse? Esse ser humano vai virar-nos a cara e se ofender? São questões novas diante de um fenômeno igualmente novo, e começamos a aprender a conviver com tal quadro, afinal o mundo se transforma e traz consigo idiossincrasias outrora inimagináveis; é preciso, pois, que nos lancemos a tais mudanças de coração aberto (mas sem perder o foco na racionalidade), buscando uma forma idílica de lidar com esse universo que, queiramos ou não, reserva-nos lá suas surpresas.

                                 Muitos, precipitadamente, alardeiam tão-somente os males nefastos do Facebook; negam-se a enxergar possibilidades interessantes no veículo. Sem dramas, e aparadas as arestas (e aí entra, honestamente, a assaz necessidade de selecionarmos melhor os "amigos"), temos muito a ganhar. A aproximação das distâncias, o aniquilamento das fronteiras, o reencontro daqueles que nos são tão caros, dos quais perpetua condoída saudade (os quais, às vezes,  nem estão tão longe assim) são apenas algumas das vantagens da rede. E há outras: risadas escrachadas diante de situações impossíveis de serem ignoradas; alertas de notícias que passariam batidas frente a ausência de tempo para uma leitura mais sistematizada; atualização de assuntos, e claro, reconhecimento dos fenômenos que ganham notoriedade, mantendo-nos up to date ante um panorama social que não perdoa os desatentos, os incautos e os desinformados.

                                 Em contraponto, realmente não é fácil se compreender a atitude dos "amigos" que trocam farpas ou enviam indiretas em um espaço o qual, a priori, tiveram o interesse de compartilhar. Alguém poderia avisá-los que estariam obviamente melhor longe dali; o Facebook é território livre, onde fincam raízes os que assim o desejam, sem obrigações ou laços definitivos__ ou seja, trata-se de um contrassenso a perda de tempo com quem não se anseia trocar o que quer que seja. Uma sandice dos fracos, tolos, inúteis e com muitas horas de existência à disposição. Ao nos expormos, é preciso entender, expomos outros igualmente, daí o cuidado necessário com o que se escreve, transcreve, copia. De fotos a vídeos, ninguém deve esquecer o que representa o universo cibernético, seguramente um lugar sem chances para ingenuidades e inocência fake. Os embustes desse veículo, é inegável, são de nossa responsabilidade; mais uma vez a prova de que o ser humano tem talento para grandes estragos, o que historicamente sempre comprovou possuir.



Escrito por Sílvia Abrahão às 20h58
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CURSO DE REDAÇÃO

                                                                                  CURSO DE REDAÇÃO SÍLVIA ABRAHÃO                                                                                                  

                                                                            

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Escrito por Sílvia Abrahão às 17h12
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Confraria dos infelizes

                                                                                                       

                    Passavam tanto tempo falando mal de tudo, que a ideia surgiu naturalmente: criariam uma espécie de clube, uma confraria de insatisfeitos. Alguém disse que precisariam de regras, afinal todo sócio sabe que deve obedecer a um regulamento. E quais seriam estas: ser amargurado, pessimista, infeliz? E por que não? De gente alegre o mundo anda cheio, e eles tinham o direito de reclamar sim, e também de se exaltar, exasperar, achar todo mundo um bando de touperas servis e a sociedade um reduto de nulidades ambulantes.

                   Motivos para reclamações, ademais, não faltavam. Quando o grupo se reunia, os dissabores iam do mau atendimento da caixa do supermercado, a grosseria no trânsito (dos outros, é claro) até a ineficiência do médico e seu séquito de secretárias inúteis. Aliás, as secretárias eram sempre um bom mote para uma discussão: havia aquela da imobiliária, a do escritório de advocacia, a do dentista, e também a "do lar", sempre um problema. E na mesma esteira de difamações entravam os patrões, os colegas de profissão, as vendedoras de shopping, os atendentes de banco, os motoristas, os ciclistas, os transeuntes, e qualquer coisa que se assemelhasse a um ser humano. O fato é que as horas corriam soltas quando se dispunham a enumerar as obsequidades da semana. Não gostavam especialmente das pessoas que cantavam, já que concordavam unanimemente que os tempos não estavam para isso; as músicas da atualidade seriam uma afronta à inteligência de qualquer um, assim como as danças coreografadas que correspondiam a uma óbvia falta de senso de ridículo, talvez até mesmo a confirmação de que a sociedade, sem que soubesse,  aos poucos estaria sendo abduzida, reprogramada e recolocada na Terra com o intuito de preparar o planeta para seres superiores.

                   O sentimento de vergonha alheia o faziam elucubrar sobre muitos assuntos, dentre os quais crianças, animais e plantas.  Odiavam essa tríade e também os que amavam cuidar de seres irracionais como se fossem gente (desprezavam com notável repugnância aqueles aos quais chamavam de "eco-chatos"). Os pequenos eram um item à parte, pois acreditavam que os pais modernos estavam estragando seus rebentos com a falta de limites e aí havia razão suficiente para teses intermináveis sobre o fim dos tempos, afinal se encontrariam, no futuro, nas mãos dessa galera espúria, sobrando para os mais sensíveis apenas o recurso do suicídio. É bom que se diga que entre os membros da confraria havia alguns profissionais liberais, dentre eles professores__ e quando estes se punham a falar sobre seus alunos, os tristes atentados envolvendo a morte de discentes pareciam história da carochinha, pois eles sim conjecturam assassinatos perfeitos, com os famigerados requintes de crueldade. E nesse instante divertiam-se muito, tramando cada detalhe de um massacre que só existiria em suas mentes endiabradas.

                   O grupo começou a se reunir todas as semanas, e o boca a boca acabou por trazer novos partícipes sempre sedentos de compreensão e identidade. Teve-se que tomar algumas providências, como "molhar" a mão do porteiro para facilitar a entrada dessa trupe cada vez mais volumosa. O sucesso era tanto  que se obrigaram  a colocar certas dificuldades para frear aqueles que de fato não se enquadravam no perfil do clube. Não gostavam de sorrisos, nem de alegria; privilegiavam pessoas taciturnas, com histórias de vida difíceis, de preferência com decepções e rupturas sociais. Ninguém ali acreditava no amor, na generosidade, nem em amizades eternas; Deus não existia e o apocalipse era definido simplesmente por cada manhã vislumbrada ao se acordar. Viver, entendiam, era um ato de grande esforço, um tédio profundo, um mal necessário, e não à toa idolatravam Nietszche, Schopenhauer e as ironias cortantes de Oscar Wilde. Acreditavam que eram infelizes por não serem compreendidos, mas de fato__e lá no íntimo de cada um não seria difícil constatar__ sentiam-se rejeitados em um mundo pouco condescendente com quem quer que fosse.

                   O sucesso da confraria era evidente, e então começaram a dinamizar o espaço, melhorar o ambiente, caprichar nas luzes; eram encomendadas pizzas, bebidas, salgados. Decidiram  abrir terreno para a música, contanto que fosse de "alto nível", é claro, e mulheres seriam aceitas, caso se enquadrassem no rígido modelo exigido, obviamente. E em algumas semanas o clube estava transbordando de energia, com todos a falar, escutar, interagir, comer, beber, e sem que percebessem, rir e cantar. Em uma das noites, justamente por isso, receberam a visita do síndico do condomínio, acompanhado por um policial, pois haviam ultrapassado as leis da boa conduta. O veredito: as reuniões eram animadas demais e as risadas se ouviam longe, a altas horas. Que levassem a felicidade deles para outras plagas, por que ali estavam incomodando.



Escrito por Sílvia Abrahão às 17h29
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Na livraria

                                                                                                                        

                                          

                          Em plena via-sacra para as compras de natal, entro em uma livraria e percebo que entre livros e  outras múltiplas possibilidades, conseguiria dar conta de setenta por cento dos presentes que ainda faltavam. Escolho algumas obras, um jogo, duas caixas decorativas, chaveiros e bonecos. À minha frente, na fila do caixa, um casal é atendido__ marido e mulher carregam três livros e observo que uma das obras é "A Tormenta das Espadas", um catatau de mais de oitocentas páginas, terceiro volume da saga  do escritor George R.R. Martin. A dupla parece interessante, articulada, com "boa aparência". Puxo papo, perguntando: "Quem é entre vocês o leitor de George Martin?"  Não respondem, e por alguns segundos constrangedores me arrependo de ter aberto a boca... mas eis que o homem, sem me lançar um olhar que seja, de costas, esbraveja: "Nenhum de nós dois, porque não lemos esse tipo de porcaria". Antipaticamente, com idêntica postura, a mulher completa: "É para presente!"

              Eu nada mais disse. Quando me deparo com cenas de profusa falta de educação, costumo ser acometida, primeiramente, de estupefação, em seguida  raiva, e ao final, desprezo. Exatamente nessa ordem. Não sou fã de George R. R. Martin. Não li a série "As Crônicas de Gelo e Fogo", mas sei que esse autor é um fenômeno global, tendo sido eleito neste ano uma das cem personalidades mais influentes do mundo pela revista Time. Também sei que G.R.R.M é um grande roteirista americano de ficção científica e histórias de terror, e atualmente considerado um dos maiores ficcionistas de literatura fantástica de todos os tempos, tendo superado o magistral Tolkien, escritor de "O Senhor dos Anéis ".  Além de tudo, conheço um monte de gente bacana, bem interessante, inteligente e antenada que curte os livros de Martin com uma paixão que só os aficionados possuem.

              Volto ao casal e penso: para quem dariam o livro, alguém que consideram um babaca, que gosta de ler "porcarias", que não está à altura de seu nível intelectual? E quanto a mim? Na opinião deles, subliminarmente, outra idiotizada que aprecia uma obra menor ?  De qualquer forma, nada justificaria tamanha falta de delicadeza, respeito ou seja lá o que possa definir a inabilidade desses dois seres humanos no trato social. Em tempos idos, livrarias , locadoras, lojas de CDs eram lugares para se encontrar outras pessoas, interagir, conversar, trocar ideias, inclusive antagônicas, ficar horas a fio descobrindo coisas, aberto a recomendações, influências e toda sorte de energia a nos estimular. Agora esses recantos mais se parecem com supermercados, ou simplesmente deixaram de existir. Entra-se, escolhe-se o objeto, passa-se no caixa, paga-se e...some-se. Rápido, pois há pressa__ sem muito falar e escutar, pois a opinião alheia não interessa; sem muito olhar, pois o outro incomoda; sem muito a opinar, pois as resenhas críticas já foram lidas e instituíram o padrão a ser reverenciado. Simples assim. Vivenciamos a era do egoísmo, da arrogância, da materialidade. Cada vez mais enclausurados dentro de nós mesmos, não percebemos que podemos ter perdido a essência do compartilhamento, a mesma que em tempos pré-históricos nos retirou das cavernas que habitávamos. Doce evolução.

                Ao chegar minha vez de ser atendida, a moça responsável pelo caixa lançou-me um olhar de consternação. Ou pelo menos foi o que decifrei. Ficamos mudas, olhando uma para a outra, e ao ver que o casal se afastava para longe de nossa linha de visão, passei todos os meus pertences, os quais precisariam ser embalados para presente. Nesse instante, notei um homem com roupas esfarrapadas, sujo, de aparência bizarra, que lia em voz alta um livro aberto sobre uma das estantes, interpretando cada frase com gestos teatrais. Rimos. As vendedoras o cercaram e observei que um segurança havia sido chamado. Imediatamente, senti algum tipo de afeto por esse personagem tão singelo. Naquele contexto, ele me pareceu mais interessante do que todos ali dentro, a confirmação de que a loucura carrega consigo idiossincrasias bem mais nobres do que a racionalidade torpe de um casal mal-educado, repleto de empáfia e complexo de superioridade que vomita julgamentos de valor sem conhecimento de causa. De qualquer forma, há sempre algo a  aprender ao se observar a fauna humana.

                No próximo ano, em minha lista de deliberações, coloco a leitura das obras de George R.R. Martin, e que venham os seus tijolos de centenas de páginas. Ironicamente, sinto-me inspirada. Estarei pronta para eles.

               

                                                                                         

 



Escrito por Sílvia Abrahão às 00h32
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Ausência

                                     

                                  

                                        

                                                       Eu vivo

                                        Mas não  aqui

                                        Em outro lugar.

                                        Onde sou dona do tempo

                                        Das vozes, das falas, do ar.

                                        Onde não há obrigações

                                        As contingências malditas

                                        Reclamações.

                                        Para onde viajo todas as noites

                                        E em instantes roubados da manhã e da tarde.

                                       Onde não há lei

                                       Nem decisões a tomar.

                                       Onde sou rainha e rei

                                       E ninguém pode me achar.

                                      



Escrito por Sílvia Abrahão às 16h28
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Quem tem medo da crítica?

                                                                                                 

                                               

                           É possível que haja pessoas imunes à crítica, mas convencionalmente o que se observa na sociedade mundial são indivíduos que possuem extremado apego àquilo que é reproduzido sobre sua pessoa, seja para o bem ou para o mal. Talvez alguns até mesmo extrapolem as leis de boa conduta ao se importarem tanto com o que é apregoado pela voz alheia.  Mas, afinal, é concebível encontrar um ponto de equilíbrio diante do que é proclamado pela "sapiência" de terceiros quando em jogo está  o que somos, fazemos, gostamos?

                           A crítica, quando abalizada pela racionalidade e pela essência de um conhecimento não afeito às superficialidades,  pode servir como agente catalisador, impulsionando a entidade analisada a reflexões pertinentes, as quais devem servir como uma lanterna bem direcionada a evitar novos percalços em uma estrada de pedregulhos, ou ainda comemorar com luzes nada esmaecidas a galhardia de um trabalho bem realizado. O receptor, a propósito, ao conceder credibilidade à crítica instituída, ganha um tempo precioso renegando o que notoriamente não funciona ou, ao contrário, aceitando o convite para desbravar ao que se denominou instigante, brilhante ou enternecedor. O lado vil do arsenal de artilharia em que pode se transformar o exercício das análises nada indulgentes está, por sua vez, na atuação gratuita e malevolente de resenhistas que espezinham, arbitram, aniquilam, sem com isso trazer qualquer bônus que sirva de senha para a arte maior da observação.

                            Teatros lotados, restaurantes fechados, filas para o cinema ou o esvaziamento de uma galeria de arte. Não são poucos os exemplos que ilustram a força que os comentários publicados em fontes jornalísticas ou literárias de prestígio representa. De certa forma, somos nós todos igualmente fortes quando empreendemos nossas próprias críticas, então travestidos naquele que tem o poder de analisar com bravura os feitos do amigo, do vizinho ou do ator de TV; somos anjos e algozes__a depender do senso de percepção ao qual nos lançamos, da ótica que nos circunda, e sem dúvida gostamos de representar tal papel, ademais não há nada mais cômodo e irremediavelmente tentador.

                             A crítica, contudo, parece ter conhecido tempos mais áureos outrora; hoje, acanhada, surge bem menos glamurosa. Na fase do politicamente correto, e em um momento histórico quando a pressa rege as ações, os espaços destinados a análises aprofundadas (sejam artísticas, políticas, sociais) faz-se esmaecido por cores cada vez mais neutras, e espaço tacanho. Os textos ocupam colunas diminutas, e a objetividade de frases curtas, vocabulário simplista e ausência de torneios figurativos ditam o perfil do século 21. A regra apregoada pelos editores é a de que "o menos é mais", e com isso proliferam as resenhas mesquinhas, que fecham qualquer questão analisando o objeto em seis linhas. Simples e fácil. A questão é: fácil para quem? O leitor, obtusamente poupado dos melindres e pormenores, sendo lançado ao inferno das efemeridades? Ou o autor, que tem seu trabalho posto em xeque, boicotado e ceifado a uma só vez em um exercício de preguiça que em nada o engrandece? Enfim, perdemos todos.

                            Uma das maiores críticas do teatro brasileiro, a octogenária Bárbara Heliodora, reclama de que, em épocas passadas, escrevia suas análises para uma peça teatral em até duas folhas de jornal. Agora, Heliodora assina uma coluna que ocupa menos de meia página, e ninguém se queixa da insuficiência. O resultado disso? É preciso cortar maiores considerações, "esquecer" alguns detalhes, exterminar a força das elucubrações, pois não há mais lugar para as observações de estirpe. Nem há leitores nelas interessados. O que se avista é um público afoito, atrás apenas de duas ou três palavras que o instigue a "comprar" ou não o objeto de seu interesse. Ou ainda pior: uma juventude acrítica, que consome entretenimento ruim e enriquece ídolos que surgem do dia para a noite sem questionamentos, nem peso na consciência.

                            É fato que quanto mais intelectualizada uma sociedade, mais afeita à crítica será. E os motivos para tal constatação são de fácil reconhecimento: um povo que lê é, por si só, ele próprio um crítico potencial, um censor arguto daquilo que o cerca. Não deve haver indolência quando em risco está a nossa formação cultural ou de gerações vindouras, e por isso faz-se necessário uma mente aberta a considerações, reflexões, ponderações__ exatamente o papel da crítica. É esse exercício, logo, que irá nos resgatar das influências perniciosas, alavancando-nos à capacitação do ato de pensar. Já disse o filósofo Bertrand Russell que "o pensamento é revolucionário e impiedoso, mas a única forma de libertação". Que nos libertemos, pois, da inércia que nos norteia lançando-nos ao glorioso ato de apregoar a necessidade do encantamento quando simplesmente não o encontramos. É preciso, sim, mudar o pensamento vigente do comodismo e nos tornarmos críticos menos latentes e mais manifestos em busca de um ideal que possa nos redimir de um painel contemporâneo longe da excelência.



Escrito por Sílvia Abrahão às 23h26
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A lição do mal

                                   

                        Talvez seja preciso ser um pouco ignorante para se viver. Ter alguma brutalidade que se sobreponha, em algumas ocasiões, à sensibilidade. Os frágeis demais, em tempos modernos, são facilmente tragados pela maldade atávica que se sustenta sem grandes dramas. Simplesmente o mal existe, e na verdade sempre existiu. Que atire a primeira pedra quem nunca foi vítima de uma situação de aniquilamento, seja lá com que gravidade tenha ocorrido, ou qual trauma tenha alimentado.

                       A história é pródiga em nos relatar o quanto a maldade esteve presente na esfera da humanidade, em ações melindrosas, assoberbadas de inveja, despeito, desonestidade, inelegância, ou em grandes espetáculos de violência; coadjuvante ou protagonista, o certo é que seu papel definiu destinos, precipitou desencontros, eclodiu batalhas, sem piedade de quem fosse, do que fosse. Logo, negar o mal é negar a própria essência humana.

                      Só os tolos acreditam mesmo que a dor revitaliza, engrandece, transforma . Engrandece? Sim, o pessimismo, a amargura, a descrença na própria espécie. Transforma? Sim, alguém civilizado, educado, respeitoso, em um animal vingativo, um ser pouco indulgente, sarcástico, intolerante. O dia a dia de misérias só nos faz mais fortes como lutadores, como sobreviventes em um mundo que nos deixa claro, a todo instante, quem tem chance de vencer e quem pode ser vencido. Só não vê quem não quer, ou os que insistem nas obsequiosidades das utopias. Chega-se a um ponto em que a ingenuidade não é tolerada nem entendida como qualidade; a inocência deve pagar pedágio e pedir desculpas por existir.

                      Nunca o mal se banalizou com a grandiloquência que se avista, isso é fato. Talvez em épocas idas, o choque provocado por acontecimentos brutais durasse mais; as pessoas necessitavam digerir a violência que as vitimava ou a outrem.  Agora tudo é rápido demais e os meios de comunicação ajudam a esmaecer as cores de uma tragédia, lançando-nos a outra e mais outra sem que tenhamos tempo de pensar, discernir, sofrer. Daí a necessidade da expertise para se caminhar com alguma altivez nesse universo de mandos, desmandos, e nenhuma comiseração. Nietzsche acreditava em um pessimismo criativo, que clama por mudanças e a destruição do velho para o encontro do novo, como ele mesmo disse: "É preciso não temer a escuridão para se alcançar a luz". Trata-se de uma lição que nos convém aprender.



Escrito por Sílvia Abrahão às 21h00
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Prato que se come frio

                                                                                            

                                                                                             

                         O nome dela é Prycylla Karollynne. Sim, escrito dessa forma. Os responsáveis por tamanha atrocidade? Ora, os pais. Uma dupla de emergentes retardados que acredita no transbordamento de consoantes como símbolo de status quo. Assim, a pequena Karol já estreou predestinada às luzes, uma linda mocinha que, certamente, desde a hora de seu nascimento, em uma conjunção perfeita de astros e planetas, estaria fadada a ter muito sucesso na vida.

                        Bem, "mocinha" é um termo de irônica ingenuidade, um atributo pueril que pouco se reporta à descrição daquela em que Karol se transformou na adolescência:  uma verdadeira piranha. Não no sentido profissional, "bien sûr", afinal é filha de advogados (o casal lá de cima), mora em uma bela casa, tem cartão de crédito e viaja muito. Ou seja, ela não precisa trabalhar para sobreviver, coisa que algumas prostitutas fazem com alguma dignidade. A moça estuda em um desses colégios de elite na capital. Estuda? Não, esse não é o verbo correto. Aos 17 anos, Karol "flana" pela escola. Sempre carregando um celular entre as mãos, desfila pelos corredores do colégio a procura de algum movimento, ver e ser vista; simplesmente não consegue se concentrar em uma aula sequer; acha tudo chatíssimo. Escrever uma redação, para ela, equivale a uma sessão de tortura, pois é o instante em que, sem máscaras, tem que revelar afinal o que se passa em sua cabeça: nada. Intelectualmente é uma negação, sem ter lido um livro inteiro em toda a vida (nem mesmo aquelas fábulas infantis), odeia teatro, sinfônicas, museus; não tem paciência para ler revistas, quando muito folheá-las para ver as fotos. Para as avaliações de literatura, sempre recorre aos resumos prontos das obras, ou pede para alguém "lhe contar a história". Química, física? Hieróglifos. Matemática: para somar dez mais dez mais cinco, pega a calculadora.

                       Estranhamente, tanta ignorância nunca lhe trouxe problemas. Ao contrário, é expert em colar dos outros nas provas, rápida para tramar planos mirabolantes (como o roubo de um teste que fez toda a turma tirar dez), e destemida na arte da sedução. Com um corpo torneado, rebolado nos quadris, aqueles passos nada indulgentes, dos que se acham a única cereja do bolo, e um olhar de tudo-posso-por-que-posso, a menina já levou para cama uma meia dúzia de professores, apenas ao estalar de seus dedos com unhas pintadas de preto. Karol não é especialmente bonita, nem possui algo que a diferencie das outras, ao contrário, assemelhada a tantas na aparência massificada__ as mesmas calças jeans apertadas, blusinhas indefectíveis e os cabelões, claro, obrigatórios na cintura, alisados a formol. Mas ela é segura, ousada e derruba quem cruza seu caminho. Tão jovem e tão sábia, pelo menos no que se refere ao jogo da vida__ vida dos canalhas, bem entendido.

                       Karol já roubou namorado alheio, já fez perfil falso de pessoas conhecidas na net, inventou boatos, mentiu, dissimulou, desrespeitou e tramou o ocaso daqueles que "não suportava", enganando até quem a considerava uma amiga. E tudo isso sem dramas ou dores de consciência, com um sorriso irônico nos lábios e um olhar satânico de quem sabe o que quer.  É claro que o tratamento dispensado às professoras não era o mesmo que ofertava aos mestres. Odiava-as, ria delas, ridicularizava-as; colocava-lhes defeitos; achava todas umas fracassadas, e qualquer oportunidade era ideal para seu show particular de escárnio e humilhação, levando seus pares a um igual exercício de depreciações__ sim, por que Karol se cercava de companhias com as quais se identificava, afinal, o mal se reconhece, alia-se, conforta-se. As amigas burríssimas eram todas muito parecidas... e companheiras.

                      A garota das muitas consoantes conhecia todos os motéis da cidade, e adorava divulgar isso, fazendo um ranking de qualidades e defeitos; também não se importava, quando batia os olhos em um homem que lhe interessasse, se este era solteiro ou casado; esses valores não a sensibilizavam, passavam à margem de sua própria ética pessoal. Nunca havia se apaixonado de verdade, enjoava rapidamente das suas conquistas, mas possuía endiabrado desejo sexual__ algo que a prejudicava quanto à concentração nas aulas. Pensava em sexo quase todo o tempo. Talvez por isso transasse com os professores, pois eles estavam ali, todos os dias, à sua frente, eram uma opção natural. E apesar de morar em uma capital, a cidade era pequena e os recursos de diversão, limitados. Sobravam poucas opções e muita competitividade. Os pais, por sua vez, não tinham a menor ideia de quem fosse, de fato, sua pequena; sabiam que a filha era desorganizada, consumista, autossuficiente e "distraída" para os estudos (era isso o que diziam), ou seja, um amontoado de eufemismos para egoísta, vagabunda e topera! A mãe havia encontrado, em certa ocasião, dez calcinhas no lixo, pelo simples fato da moça ter se recusado a lavá-las, em uma época de vacas magras e falta de empregada__ algo que hoje contava rindo, como a dizer folcloricamente: "Essa minha filha!"

                       Karol tinha um irmão, com quem pouco convivia. O rapaz era mais velho, cursava universidade em uma cidade próxima e vinha para casa aos finais de semana. Ele tinha os próprios amigos, outros interesses e enxergava a irmã como uma patricinha mimada, nada além do normal avistado por aí, ou seja, mais um desavisado que não conhecia o inimigo ao lado. Jamais imaginaria que sua irmãzinha seria capaz de ter feito um filme caseiro pornô, usando sua web cam, deitada na cama dele. Todos os dias, a garota ia para a escola levada pelo pai, e contava bravamente os meses que faltavam para ganhar seu carro, quando fizesse 18 anos, o que já estava bem próximo. E então iria para a faculdade dirigindo, sem precisar de ninguém. Faculdade? Sim, essa era uma certeza absoluta; dinheiro para as mensalidades de uma instituição privada não seria problema para sua família. Na cabeça de Karol, preparação para vestibular era algo inimaginável, assim como odiava papo sobre universidade pública, nada com que tenha um dia sonhado. Decidiu que faria publicidade. Simples assim. Até se entusiasmava um pouco quando pensava a respeito, claro que imaginando os novos homens que conheceria por lá, um novo espaço para flanar, e não o estudo em si, ademais por publicidade entendia ser aquele momento quando entravam as propagandas no meio das novelas a que assistia.

                       Um dia, por tédio absoluto, falta do que fazer, resolveu pregar uma peça na melhor amiga. A moça reclamava muito que estava sozinha, não tinha homem na cidade, queria namorar. Karol inventou um perfil na internet de um cara bacana, educado, interessante e começou a assediar a amiga. Mandava-lhe fotos, conversava com ela na web, trocavam mensagens pelo celular. A amiga estava nas nuvens, francamente apaixonada. Às vezes, almoçando juntas, Karol lhe mandava torpedos e a garota os lia para a amiga, como a compartilhar o maior dos segredos, com os olhos brilhando de satisfação, sem perceber que aquelas palavras haviam saído do celular à sua frente. Mas o tempo foi passando, e a tal amiga começou a forçar a barra para um encontro com o rapaz "na real". Para dar um jeito na ansiedade da garota, Karol resolveu terminar o romance. Nesse dia, inventou uma desculpa esfarrapada, de que os pais "o" estavam forçando a estudar no Canadá, blablablá. A amiga se deseperou. Choro, dor... nada a  consolava. Não entendia por que alguém que se dizia tão apaixonado, que era tão presente, tão especial, estava saindo assim de sua vida, sem o menor esforço para cumprir a promessa do almejado encontro dos dois. Mas, como dizem por aí, "o que não tem remédio, remediado está", e a vítima ficou ainda mais descrente dos homens do que antes. Sem jamais imaginar, contudo, que ele nunca havia existido. Karol? Divertindo-se muito, como de costume.

                      Karol era arrivista. Pedante, sempre mirava a tudo e a todos com aquele olhar inquisidor, característico dos cínicos; as garras negras frequentemente afiadas para ferir. Adorava passar trotes, fingir ser quem não era, inventar vozes. As esposas dos homens casados com quem se aventurava eram as vítimas preferidas__ tinha um repertório pronto de bizarrices para importuná-las, lançando seu veneno letal. Gostava de chamar as mulheres de "coroa", achincalhá-las do alto de sua juventude impura. Na mente dela, a juventude significava a primazia do poder absoluto, como se por ser jovem ela pudesse qualquer coisa; fosse a dona do mundo, protagonista de todas as histórias, senhora do presente e do futuro. Ninguém poderia ser melhor do que ela se fosse mais velho, mesmo que poucos anos... muito mais idade, então... bem, aí seria, em sua mente doentia, sinônimo de total nulidade.

                     Até que um dia, o destino pregou uma peça na moçoila consonantal. Cansada de aulas e mais aulas, dos professores chatos que cobram tantas besteiras e falam tanto de vestibular, Karol e mais três endiabradas do mesmo naipe (lembrem-se, o mal passeia em bando), fofocando pelos corredores do colégio (por que as mais burras são as mais fofoqueiras?), falando mal de todos, resolveram dar uma fugidinha, passear no shopping. Uma delas estava com o carro da mãe naquela manhã, uma oportunidade perfeita. Após o intervalo, misturaram-se aos alunos dos cursinhos, que saem e entram a hora que bem entendem. De cabeça erguida, passaram pelo portão, sem qualquer dificuldade. Riam muito, debochadamente; uma delas jogou as apostilas no latão de lixo, na calçada, outra arremessou seu livro de matemática sobre o muro de uma casa próxima, em que um cachorro latia nervosamente, e Karol digitava no celular uma mensagem quando, distaída, não viu o caminhão que descia desembestado ladeira abaixo, na rua ao lado da escola. Todas conseguiram correr, menos ela. A pancada foi grande, e seu grito de desespero ecoou tão forte que paralisou aqueles que presenciaram o acidente. Karol sofreu algumas escoriações, uma bela pancada na cabeça, mas o problema maior foi o braço, arrancado violentamente. Uma cena bem triste de se ver.

                    Atendida com prontidão, houve a tentativa de reconstituição do membro, mas a cirurgia não funcionou. Os pais advogados processaram a escola, afinal como podiam ter liberado sua filha, em pleno horário escolar, sem autorização? Ah, sem dúvida a culpa era da direção, supervisão, coordenação, dos inspetores... Tudo foi tentado para se conseguir reverter aquela situação trágica, tudo que o dinheiro pode pagar, mas... o que se pode dizer? A vida da garota de múltiplas consoantes mudou drasticamente. Unhas pretas? Bem, agora só nos dedos que restaram.



Escrito por Sílvia Abrahão às 19h01
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Nostalgia nossa de cada dia

                                                                       

                                        Em tempos idos, apenas os mais velhos revisitavam o passado com uma saudade latente; hoje, não é pequeno o número daqueles que reclamam da rapidez com que algumas atividades ficam para trás, substituídas por outras consideradas mais atualizadas. Na contemporaneidade, sofremos de nostalgia.

                         Em um mundo de ações cada vez mais urgentes, de substituições impostas, estamos perdendo o rumo das coisas. Não sabemos direito quem somos e o que queremos pelo simples fato de não haver tempo necessário para degustar as possibilidades que a vida nos oferta. Temos que ser antenados, bem informados, conhecer novas gírias e utilizar os aparatos tecnológicos lançados pelo mercado sob pena de sermos apontados como ultrapassados e então lançados ao estigma da ineficiência. Nosso valor, é bom que se entenda, está atrelado às pequenas revoluções da indústria, a qual nos brinda diariamente com tantas novidades que, é irônico constatar, necessitaríamos de outras existências afora essa para um desfrute a contento. 

                         As bonecas somem rapidamente do universo infantil das meninas, as quais se interessam pelas novelas da tevê, por astros pop, roupas novas, conversas de adulto na internet, reproduzindo um modelo de ser humano maduro, pouco afeito aos símbolos pueris. O resultado disso será uma saudade, anos à frente, de um período que passou rápido demais, sem ter sido experimentado em sua plenitude, o que talvez explique ações imaturas em pessoas adultas, que sucumbem a práticas "infantiloides" quando deveriam representar posturas mais cordatas. Meninos são estimulados a "azarar" as pequenas, incentivados a extravasar impulsos sexuais que não possuem, com os quais terão, ademais, toda uma vida adiante para lidar. 

                         Temos nostalgia até daquilo que desconhecemos, como se guardássemos na imagética um quadro de cenas fantasiosas que confundimos com a realidade por tomar emprestado dos outros a vida que não vivemos, mas gostaríamos de ter vivido. Os modelos sociais são tão especialmente interessantes que acabamos por sucumbir à inércia existencial para assistir ao rumar impávido dos passos alheios, como uma plateia comportada em um teatro de elite. Há a saudade daquilo que não somos, daquele que um dia imaginaríamos ser. E onde nos perdemos afinal? Talvez em meio a essa pressa manifesta que nos acusa de indolência ao menor sinal de desajuste, recuo.

                         Etimologicamente, a palavra nostalgia vem do grego, "nostos", que significa retorno a algo, e "algia, dor. Extraímos daí o conceito de retorno a algo distante, em um exercício doloroso de retomada de sensações. Doloroso por não conseguirmos reproduzir com as mesmas tintas aquilo que no passado parecia tão reluzente, especial. Jamais será possível, é inegável, essa precisão na captura de imagens remotas, por mais que exista um desejo íntegro e digno que impulsione à ação da tentativa. E o motivo para isso é simples: não somos mais os mesmos, apesar da latência espiritual que nos implora pela alegria vivenciada outrora__ emoções são únicas porque são autênticas, com as surpresas de cada tempo, e a contextualização de nossa insipiência.

                         Retirar do presente a pungência das mais módicas ações é o que nos resta, caso contrário seremos reféns nostálgicos de uma vida contemplada sempre à revelia do prazer, do regozijo. E para isso faz-se oportuno driblar a pressa, a urgência dos fatos__ logo, em uma sociedade que garimpa novidades a cada minuto, ninguém conseguirá ser absolutamente atualizado, pois sempre haverá algo a se saber, algo a se estranhar, algo a surpreender. As paranoias impostas são bem-vindas do lado de fora do nosso quintal; limpemos, pois, nosso templo, com a tranquilidade que merecemos.



Escrito por Sílvia Abrahão às 19h50
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Aplausos bizarros

                                                                                                          

                                     Uma das ex-participantes do reality show "Big Brother Brasil 11", da TV Globo, é convidada do apresentador Fausto Silva para responder a perguntas do público após sua saída do programa. Frente a uma plateia heterogênea, Adriana Santana estreia em sua carreira midiática. A jovem de recém-completados 20 anos declara que não deseja mais cursar odontologia, pois seu sonho é ser atriz ou apresentadora. Alguma surpresa? A loira de corpo esguio, seios siliconados e nariz cirurgiado __tudo é válido em busca da perfeição __ atualmente miss Campos de Goytacazes, afirma que sim, posará nua para a PLayboy (seu sonho é fazer um ensaio no estilo ninfeta, algo com que se identifica...) . A resposta do público: aplausos.

                       Ao longo da entrevista, repleta de perguntas muito pertinentes, a moça diz possuir invejável autoestima, preocupando-se em primeiro lugar consigo mesma, em segundo consigo mesma, e em terceiro... advinhemos! Resposta do público: mais aplausos.  Sem falsa modéstia, acredita que foi vítima da inveja alheia, ou seja, das outras convivas do tal programa, as quais não teriam conseguido engolir sua "beleza". Questionada sobre ter traído o namorado na casa, Adriana não se intimidou, respondendo que não era casada, portanto não estava presa, e ademais era muito nova, podendo fazer o que bem lhe desse na telha. Aplausos frenéticos.

                      Todo o quadro acima retrata apenas aquilo que vivenciamos na modernidade; estamos cercados por ações individualistas. Muitos acreditam, hoje, que pensar em si acima de todas as outras coisas é o mais sensato a se fazer; aos outros sobra a migalha da atenção quando esta, por sua vez, existir. Traição? Tal fenômeno perdeu impacto, banalizou-se, e o que se tem, sem que cause qualquer estranhamento, são relações baseadas na efemeridade. Se ninguém é de ninguém, por que se chocar diante da relação desfocada, decaída, derrubada? Afinal, como alguns dizem do alto de sua sabedoria hedonista, "a fila anda".

                      Por ser jovem, e ser a juventude reverenciada por uma indústria maniqueísta sem piedade dos demais, alguns acreditam que todos os seus pecados serão magicamente deletados. Sou jovem, por isso posso trair; sou jovem, por isso posso mentir; sou jovem, por isso posso... qualquer coisa. Mas alguém precisaria avisar a estas pessoas que a juventude não pode ser confundida com permissividades de toda estirpe, menos ainda com o abandono da ética pessoal. Se há valores em jogo, princípios morais, então o cuidado no trato com o semelhante faz-se imprescindível; não podemos passar feito rolos compressores sobre o alheio em resposta a instintos bárbaros de seres pouco afeitos ao respeito. Ao contrário, chegou-se o tempo de reverter a barbárie existencial em que nos encontramos sob pena de amargarmos o eterno papel de coadjuvantes enquanto jovens protagonistas filmam o roteiro da vida sob sua ótica egocêntrica, arrogante e perversa.

                       No filme "A Queda", que conta a experiência de uma jovem como secretária de Hitler, nos últimos dias de vida deste, a personagem principal relata que não conhecia o holocausto, nem tinha ideia das atrocidades cometidas pelo führer, e envergonhada finaliza seu depoimento com uma frase contundente: "A juventude não é desculpa para nada".  Muitos, na ânsia de se adequar aos parâmetros vigentes, recusam-se a amadurecer, e acabam por encenar um espetáculo patético. Se o mundo nos brinda com tantas possibilidades, informações, entretenimentos, é mais que tempo de se lançar a esse universo descobrindo nossas reais vontades, nossa plausível identidade, sem aniquilar o outro e seus próprios anseios, pois parece pior interpretar um papel pouco condizente ao nosso talento do que rejeitá-lo.

                        Adriana, a ex-BBB de ego inflado, que possivelmente encherá o cofre colhendo os louros de sua estética privilegiada, em uma sociedade que reverencia apenas símbolos estetas, nem teria chance de existir se fôssemos minimamente cônscios daquilo de que precisamos e do que poderia de fato transformar nossas vidas__ mas não, preferimos enaltecer o modelo multiplicado aos milhares, com a mesma cara e a mesma voz de sempre, tão parecido com outros que fica até difícil não confundir as fisionomias. Aplausos...

                      



Escrito por Sílvia Abrahão às 21h55
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Vencer ou... vencer

                                                                                           

                                             Vivenciamos uma era em que o estigma do sucesso nos é impingido a todo instante. Somos cobrados a desempenhar competências e a alcançar metas sem trégua, sem descanso, sem complacência. Aqueles que não atingem algo próximo à perfeição são considerados ineptos ou indolentes. Não é pequeno o número de pais que obrigam a prole a toda sorte de estudos, esportes, línguas (o "mandarim" é a nova coqueluche dos emergentes visionários). Tudo é aceito em prol da ideia de superioridade; vale qualquer coisa para se encontrar o olimpo dos mortais.

                          Todos os dias a sociedade atira-nos à face o ideal da vitória como marco único a ser conquistado; sem chances, o fracasso não nos é ensinado, e muito menos aceito. De todas as faces do preconceito, e estas não são poucas, talvez aquela que diz respeito ao desprestígio social seja a mais vigorosa__ o que significa dizer que aos não reverenciados com o reconhecimento em sua área de atuação sobra um sentimento de menos valia. Em um país como o Brasil, é vexatório afirmar, um cidadão rico, mesmo que acusado de corrupção, golpes diversos, tendo devassada sua vida e expostas publicamente suas mazelas jurídicas, goza de status irrefutável, sendo bem recebido em todas as frentes sociais pelas quais transita.

                          Mas, afinal, questiona-se: pode o ser humano ter sucesso sempre? Em vários momentos de nossa existência, bem sabemos, iremos nos deparar com situações difíceis, com obstáculos por vezes intransponíveis, entendendo com presteza que tais prerrogativas fazem parte da vida. O psicanalista italiano Contardo Caligaris afirma, polemicamente, que deveríamos ser ensinados a não acreditar na ampla materialização da felicidade, tendo sido transformada esta em uma busca insandecida por um ideal utópico, já que a realidade nos perpassa uma série de transtornos que desenham um processo passivo de dores da mesma forma que de afetos e  prazer.

                          Não são poucos os nomes na história daqueles que foram capazes de recomeçar diante a iminência do fracasso, frente a derrota inconteste. Personagens reais que ousaram não desacreditar do próprio potencial, apesar da dor e do desespero. Saber prosseguir em meio ao caos aparente é, sem dúvida, uma ação de extraordinária nobreza; a atitude dos fortes que compreendem ser a jornada uma experiência necessária e bem-vinda, com seus erros e acertos. 



Escrito por Sílvia Abrahão às 21h50
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No supermercado

                                               

                   Maria Alice gostava de fazer compras em supermercados. Não sabia bem explicar o por quê. Talvez a oportunidade de ver pessoas, encontrar gente e, principalmente, azarar os homens. Sim, pois estes últimos povoavam seus pensamentos doze horas por dia, já que o resto do tempo utilizava dormindo.

                   Passeava por aquelas gôndolas resgatando produtos supérfluos para desfrute íntimo: queijos finos, patês, bons vinhos, uma novidade aqui outra ali. Não se cansava apanhando das prateleiras uma infinidade de gêneros de primeiríssima necessidade. É claro que não, para isso existia a empregada, a qual dava muito bem conta do recado. Maria Alice gostava de flanar... sempre arrumada, perfumada, refrescada por um banho recém-tomado. E assim transitava indolentemente pelos corredores, sem pressa...sem pressa.

                   Conhecia os melhores horários para achar homens desacompanhados: final da tarde; madrugada. As madrugadas eram perfeitas, certeza de se deparar com algum achado daqueles. Esses supermercados vinte e quatro horas costumam oferecer itens sofisticados, para um público seleto, e ela já havia conhecido alguns espécimes bem interessantes: advogados, jornalistas, publicitários, tatuadores, DJs. Não tinha preconceito, muito menos esperava dos homens qualquer compensação financeira. Não precisava de dinheiro, pois tinha o suficiente, mas também não gostava de ser explorada, e por isso havia desenvolvido uma antena especial para decifrar companhias improváveis.

                  Maria Alice não era especialmente bonita, no sentido da beleza arrebatadora, daquelas impactantes, surpreendentes. Mas era, sem dúvida, uma fêmea atraente, talvez de uma forma ainda mais avassaladora: sexy, charmosa, elegante. Possuía o olhar daquelas pessoas que gostam muito de si mesmas, seguras dentro da própria pele__ algo que sabemos, e ninguém precisa comprovar, ser o maior combustível para uma mulher de forte autoestima.

                  Naquele fim de tarde estava alegre; tinha coisas a providenciar. Iria receber um grupo para um reuniãozinha regada a boas bebidas, boa comida, boas risadas. Adorava as amigas, a quem confidenciava a vivência de situações as mais esdrúxulas, sempre envolvendo o sexo masculino, "bien sur". Era livre, desencanada, independente e...solteira. Gostava de fazer o que seu corpo pedia e sua mente ordenava, sem espaço para crises de consciência ou comiserações.  E dessa vez, no supermercado, estava de fato entretida com os produtos que, obrigatoriamente, deveria comprar.

                  Com a lista em mãos, rabiscava todos os itens encontrados, e já estava chegando quase ao fim quando notou o moreno solitário, com uma cesta. Reparou rapidamente na garrafa de vinho branco que ele carregava. Aproximaram-se. Ele disse que não era bom em vinhos e indagou se ela conhecia aquela marca. Maria Alice não se fez de rogada: tirou-lhe a garrafa das mãos, recolocou-a na prateleira e pegou outro vinho, apresentando-lhe algo de primeira. Ele agradeceu-lhe com olhos cínicos, sorriso irônico. Era alto, atraente, vestido com roupa de academia; camiseta suada, tênis.  Perguntou-lhe como poderia retribuir a gentileza, afinal não é todo dia que se encontra uma enóloga no supermercado...

                 Maria Alice deu-lhe um cartão. Ainda trocaram algumas amenidades antes da despedida com dois beijinhos no rosto. Ambos entenderam o que aquilo significava, e o toque na pele foi suficiente para prenunciar o desfecho esperado. Ao sair, foi impossível deixar de sorrir, afinal aquele dia, pensou consigo, não era "dia disso". Estava à vontade, maquiagem simples, vestido leve e sandálias baixas, não estava vestida de Diana, a caçadora. Bem, talvez o hábito fosse de fato mais forte e, de novo, começou a rir, já com as compras no carro. Nem cinco minutos se passaram para que o celular espocasse, trazendo a voz daquele homem charmoso a lhe dizer o quanto o impressionara.

                Hum... Maria Alice adorava supermercados.



Escrito por Sílvia Abrahão às 23h02
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Morte diária

                        

                Morremos um pouco todos os dias. E não por que é esse o rumo da vida, a finitude, e não por que envelhecemos e a máquina que é o nosso corpo começa a emperrar, enferrujar e se despedir de suas atividades. Morremos todos os dias um pouco porque corrompemos desejos, sabotamos vontades, esmaecemos nossas esperanças.

                Há uma máxima que vaticina: "Sabe aquele barulho que escutamos quando estamos a traçar planos de vida? É a risada de Deus." Não deixa de ser irônico perdermos tanto tempo a construir planos, sonhar acordados com resoluções as quais na maioria das vezes não serão tomadas, objetivadas; fatos que não se consolidarão. Por mais que escutemos dos experientes que o dia de hoje deve ser vivenciado como se outro não houvesse, é justamente com o amanhã que nos preocupamos, o dia que mais planejamos, pelo qual mais ansiamos.

                O amanhã, acreditamos, será a nossa redenção; é nele que encontraremos o fim do martírio que nos rouba forças e nos atira à face o quanto somos tristes ou frustrados. No amanhã estará nossa capacidade de enxergar o caminho correto a se percorrer, com obstáculos que, sentenciamos, conseguiremos vencer com certa facilidade diante do empenho que nos sustentará tão magnanimamente. E então todas as conquistas são lançadas a este futuro; um amanhã que não precisa, objetivamente, representar o dia depois de hoje, pois aqui ele é simbólico, intermitente, não é uma data definida, mas o ícone de uma possibilidade.

                Morremos todos os dias, e mais ainda: suicidamo-nos. Não queremos enxergar que o amanhã não existe; aquilo que temos é apenas o hoje, o agora...este lúcido momento. Não haverá um novo começo além daquele que projetamos a partir de uma resolução real de transformação, que pode se dar na hora seguinte a esta, ou no próximo minuto. Erramos ao adiar projetos, traçar grandes estratagemas, pois em um mundo cujas vidas têm destinos improváveis, o que nos resta é agir o mais rapidamente possível em prol de nossas vontades. Adiar a palavra certa, o beijo desejado, o telefonema importante, a conversa necessária__ pecados que carregamos em vista de uma segurança equivocada a proclamar que depois ainda haverá tempo suficiente.

                Somos corrompidos por uma letargia que nos faz indolentes, apesar de um cotidiano que reflete atos de rapidez. Dirigimos mais velozmente, reclamamos atendimento imediato, não suportamos esperar... mas nos perdemos em meio ao tempo que sobra. Aflitos, ansiosos, estamos paralisados por nossas angústias, e novamente atiramos adiante aquilo que deveríamos executar agora. E por que tanta pressa, onde queremos chegar?  Talvez apenas ao quadrilátero de nossa casa, gratificados por encontrar o idílico para o qual rumamos cegamente, nosso próprio quintal. Dia após dia, é esse nosso exercíco-mor de sobrevivência: ir e voltar. Retornar para então reiniciar o ciclo dos queixumes.

               Morremos. De novo. E de novo. Sem perceber, todos os dias, mais um pouco. Enfim, em algum momento, começamos a dar conta de que algo falta, de que  talvez tenhamos nos perdido pelo caminho; afundados em lamúrias, não notamos que os elos de nossa existência se soltaram, e aquele a quem carregamos para cima e para baixo é um desconhecido, alguém a quem não conseguimos reconhecer, apesar do rosto familiar. Nem o espelho nos convence de que olhamos para nós mesmos, simplesmente por que já não mais existimos.



Escrito por Sílvia Abrahão às 15h54
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Honra aos feios

            

                                             

 

                  Em um mundo cada vez mais esteta, em que as aparências se transformam em moeda de troca das mais significativas, não fazer parte dos padrões vigentes pode parecer, em primeira instância, que o sofrimento é companheiro onipresente de muitos. Mas será mesmo? Na sociedade dos "bonitos", os mais acanhados de atributos podem extrair algumas vantagens, dentre as quais a possibilidade de abraçar uma das projeções de maior privilégio entre os humanos:  a autenticidade.

           Sim, vejamos. Não possuir uma beleza arrebatadora traz lá suas particularidades, como assumir o papel do observador astuto a se deleitar com o circo de vaidades que se constrói à frente quando a arena social anuncia competitividade, pois alguns belos__ inapropriadamente, diga-se de passagem__ adoram se apegar aos atributos físicos ao menor sinal de rivalidade, talvez de forma até inconsciente.  Muitos, inclusive, acreditam ser eternas vítimas da inveja alheia, sempre reproduzindo o conceito do "despeito" e do "recalque" de outrem como explicação absoluta para o fracasso de suas investidas. O feio, ao contrário, não foi acostumado a viver assoberbado de elogios, nunca parou para decifrar os enigmas do comportamento quando em jogo está a sedução pelos dotes físicos, posto não serem estes o seu forte. Isso lhe traz, é inegável, uma força existencial que se ampara mais no estigma da sobrevivência por vias resolutas, pragmáticas.

           É claro que existem pessoas belíssimas pouco afeitas a jogos de vaidade, generosas, sensíveis e intelectualizadas, assim como feios rudes, mas a discussão aqui perpassa justamente em desacreditar que os menos afortunados esteticamente não possam encontrar uma projeção existencial bem louvável no que concerne a plenitude de alegrias possíveis, afinal quem disse que só há um modelo de felicidade? Apenas uma maneira de se realizar? Não ter que posar de belo vinte e quatro horas, não se assemelhar a um fantoche cujos dotes físicos são sua maior qualidade, não ser julgado por mínimas imperfeições, as quais colocam em risco todo o conjunto da obra, não ser vítima constante de olhares inquisidores, sexistas, por vezes inconvenientes, não se submeter a comparações impiedosas, tem lá suas vantagens. No livro "O Perfume", a personagem Jean-Baptiste Grenouille, um homem feíssimo, de imperfeições as mais grotescas, transforma-se em um perfumista de habilidades extraordinárias, chegando a inventar um aroma que o tornaria alguém invisível, com o intuito de transitar pacificamente por ruas repletas, sem ser notado,  podendo assim observar mais do que ser observado. Aí está , pois, o privilégio dos feios: o senso de observação apurado lhes propicia a primazia dos anônimos, em que o encanto está justamente nas ações não ensaiadas e, portanto, mais autênticas e menos ansiosas.

            A beleza sempre será motivada pelo olhar subjetivo daquele que a julga, o que significa dizer que existirão eternamente conceitos diferenciados sobre o que é o belo ou o feio. Se é fato que ao olhar o outro levamos conosco toda uma cultura aprendida e apreendida na nossa criação existencial, é verdade então que ao nos apaixonarmos pelo alheio, apaixonamo-nos um pouco por nós mesmos, a quem encontramos nesse alheio. Buscamos inadvertidamente pelos signos físicos por que a sociedade reverencia uma indústria de aparências, a qual nos atira à face, todos os dias, que devemos fazer parte do modelo propagado, caso contrário, seremos infelizes, marginalizados, estigmatizados como ogros nada bem-vindos diante de um mundo cada vez mais aprisionado por símbolos de materialidade.

             Resta a todos nós, ademais, não projetar as sandices de uma indústria esteta, sob pena de nos tornarmos escravos eternos das leis de menos-valia no que concerne à beleza interior, espiritual, essa sim carente de adulações; acima de tudo é bom lembrarmos que, em um mercado que exige uma beleza com hora marcada para findar, são necessários outros valores menos efêmeros para quando tal bem não mais se fizer possível.



Escrito por Sílvia Abrahão às 13h35
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Culpa de quem?

                                                       

                                                                                

                                           Na Avenida Paulista, rapazes são atacados por adolescentes de classe média, entre 16 e 19 anos. Os primeiros levam chutes, pontapés; são esmurrados e cortados com lâmpadas fluorescentes. Há suspeita de ataque homofóbico, pois palavras como "bicha" e "gay" foram ouvidas. Um dos rapazes atacados, que desmaiou no local e encontra-se hospitalizado, só não está morto por ter sido salvo por seguranças das imediações que intercederam ao ato de selvageria.

                          Dos cinco responsáveis pela ação de truculência, quatro estudam em escolas particulares__ alguns com histórico de indisciplina e expulsão. Os cinco amigos são inseparáveis, segundo familiares. Pois o quinteto inseparável protagonizou um evento que merece manchetes internacionais, cadeia e punição das mais significativas. O quinteto inseparável mostrou, afinal, do que é capaz para se divertir. Ou alguém tem dúvida de que para eles estarem na Paulista, altas horas, passeando com suas roupas de grife, sem nada para fazer, atormentando quem encontram pela frente, não é lá sinônimo de diversão? Tinham saído de uma balada? Alguma festa? Estavam entendiados? Cansados das coisas de sempre? Então vamos andar por aí... ver no que dá.

                          Casos de violência envolvendo jovens não têm nada de novo; nem mesmo aqueles protagonizados por jovens abastados. Lembremo-nos, há algum tempo, da empregada doméstica, em um ponto de ônibus na Barra da Tijuca, no Rio, atacada por infantes endinheirados, de madrugada, quando voltavam de uma noitada. Os delinquentes disseram na ocasião que pensavam se tratar de uma prostituta, como se tivessem o direito de esmurrar garotas de programa para se divertir. Alguém teve que instruí-los sobre o fato de que aquela moça a quem covardemente esmurraram e chutaram era uma trabalhadora que estava, às cinco horas da manhã, dirigindo-se a um posto de saúde para enfrentar uma fila e pegar ficha de atendimento médico. Eles sabem o que isso significa? Acordar de madrugada para conseguir atendimento no SUS ?  Possivelmente, não. Para eles, a madrugada é o instante de voltar para casa, após baladas regadas a futilidade e álcool, tiranizando os que encontram pelo caminho__ afinal, isso ainda faz parte da festa.

                         Também é inesquecível a morte do índio Galdino, queimado por adolescentes de Basília enquanto dormia em um ponto de ônibus, de madrugada. Os envolvidos disseram, na ocasião, que era para ser uma "brincadeira", e que não tinham ideia das consequências. Eles queriam apenas se "divertir" vendo o índio pular em meio às chamas. É estranho observar que as histórias ficam cada vez mais parecidas, sendo os protagonistas pintados com as mesmas tintas. Em primeiro lugar, está o fato destes detratores nunca andarem sozinhos, mas em bandos, em grupos, quando então ficam corajosos, imponentes, seguros de suas artimanhas, resolutos para espancar negros, índios, mulheres, gays. Ou seja, para espezinhar as minorias na calada da noite. Corajosos? 

                         E o que dizem os pais? Quais castigos impingem a seus rebentos? O que falar da vergonha e humilhação ao assistir a seus filhos nos meios de comunicação, com nomes estampados em jornais? Expostos seus rostos à saída de delegacias, casas de detenção? Bem, a mãe de um dos rapazes acusados de ser um dos espancadores na Av. Paulista disse que não se conformava em ver seu pequeno chorando feito criança na delegacia, que ele não era marginal e que a mídia estava fazendo um circo de todo o caso. Outra mãe afirmou que o filho deveria, sim, ser punido, mas mudou as próprias palavras mais tarde ao acrescentar que tudo não havia passado de uma briga eventual, e que o filho tinha agido da forma que achara justa. Um dos pais, no entanto, superou os demais, justamente o do rapaz mais velho, de 19 anos, que só agora teve decretada prisão em cadeia comum: "Meu filho é muito bonito, recebeu cantada de v... e não gostou."

                        Constrangimento? Castigo? Isso sobra para a sociedade, mais uma vez envergonhada por esses verdadeiros marginais que se julgam acima da lei e da ordem, que encontram em seus progenitores a permissão para serem esses monstros sociais que transitam, enfadados, por ruas e avenidas urbanas, em bandos__sim, sempre acompanhados por suas páreas__ a disseminar o preconceito, a intolerância e a rebeldia sem causa que guarnecem em suas almas tão desafortunadas de valores morais. Uma facção de jovens criados com ausência de limites, que contam com advogados renomados ao primeiro sinal de delinquência; que contam com o abraço reconfortante dos pais ao primeiro sinal de enfrentamento, tendo lágrimas prontamente enxugadas por mães superzelosas, "inconformadas" com o exagero das acusações de que é vítima sua prole.

                        Todos os cinco jovens desse mais recente episódio de selvageria na maior cidade brasileira foram soltos após 24 horas de detenção, e iriam responder em liberdade pelos atos cometidos se vídeos com as imagens brutais não viessem à tona. Essa reviravolta levou os menores para a Fundação Casa, onde esperarão julgamento. Alguma surpresa? Trata-se de um filme velho, previsível, com as mesmas cenas de sempre. Que pena. Se a família é incapaz de surpreender, corrompendo a educação de seus descendentes, os quais por sua vez, acredita-se, reproduzirão a mesma falta de princípios aos seus próprios filhos, pelo menos a justiça poderia dar o exemplo e nos redimir desse circo de horrores em que se transformou a sociedade contemporânea. Mas também não o faz. Igualmente não nos surpreende, ratificando a velha concepção de que à cadeia só marcham os pobres. E ainda querem que tenhamos esperança de um futuro melhor. Que futuro?



Escrito por Sílvia Abrahão às 19h31
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Viagem sem volta

                                  

                                                                                                    

                                                Aquele trem passava todos os dias no mesmo horário. Adorava ver desfilar as locomotivas infames, superiores na sua inconteste velocidade, indiferentes à passagem de transeuntes que se aglomeram a espera da calmaria que lhes permitisse prosseguir os passos rumo ao trabalho, à escola, a casa, ao comércio. E ela era apenas mais uma a parar, obrigatoriamente, quando o sinal gritava o aviso de atenção; logo depois, como os demais, prosseguia seu percurso.

                                   Gostava de ter algo para fazer no centro da cidade, pois apreciava o ritmo do dia, e mais do que tudo, a oportunidade de estar ali, próxima à cancela, a observar os vagões rápidos, um contraste quase surreal a uma modernidade de tantos carros superequipados. Todas as suas viagens de trem foram inesquecíveis: bela porcelana, talheres de prata, cortinas de veludo, os bancos de couro brilhante. Ah, o cheiro... quase podia sentir o cheiro da cabine. E a vista? Aquelas janelas panorâmicas retratando o mundo lá fora se descortinando em uma paisagem de eucaliptos, pinheiros, céu de um azul morno. À noite, a viagem ficava ainda mais especial.

                                   Um suspiro fundo pôde ser ouvido vivazmente quando olhou para o alto, com os olhos entreabertos e uma lágrima a escorrer-lhe sobre a face. Nesse instante foi tomada por lembranças de toda sorte, e então se sentiu tão pequena, tão tristemente solitária. Há tantos anos que não viajava mais de trem... e afinal eles haviam desaparecido; não eram mais usados para percursos interestaduais de passageiros. Infelizmente, mais uma idiotice de um governo inepto que gerencia um país continental e despreza as potencialidades desse que é um dos mais charmosos e seguros transportes do mundo. O fato é que ficou pensativa, buscando na memória a mulher que um dia fora, ou talvez a menina... sim, a menina, melhor dizendo. Nessa época, eram tantos os sonhos, tão doce o sabor de uma vida traçada por anseios simplórios. Onde havia se perdido essa pessoa? Em que pedaço do caminho havia se desviado sem querer?

                                   Sentia saudades de seu passado, dos pais agora mortos, das poucas amigas da infância; mas sentia, mais que tudo, saudades de si. Tinha consciência dos erros cometidos, e não se perdoava pelo tempo perdido. Nunca mediu muito os esforços para conseguir o que queria, e na sua ambição renitente só pensava em seguir em frente, mesmo que para isso prejudicasse terceiros. E foi exatamente o que fez... sempre, sem refletir sobre as consequências. Na faculdade, no trabalho, no casamento, o quadro era o mesmo: a mandatária absoluta. Gostava de dar ordens e ser obedecida; era impositiva e se divertia em ver os outros perdidos como baratas tontas, cheios de mesuras, sem saber como agir. Não se lembrava de ter algum dia sentido piedade de alguém, se compadecido ou coisa que o valha. Ao contrário, possuía um discurso pronto, pouco indulgente, acusando os mais sensíveis de fracotes sentimentais.

                                   E hoje a sentimental era ela. Dias solitários, vida solitária. Casamento desfeito, ausência de amigos e uma insatisfação que a consumia tão fortemente quanto o câncer descoberto há um ano e meio. Estranhamente, a doença nunca a incomodou, até sentiu um certo alívio com o diagnóstico__ talvez a chance de se retirar da ribalta. Não tinha paciência para o tratamento todo que lhe haviam impigido, e desejava encontrar o fim imbuída de uma certa dignidade, seja lá o que isso representasse em sua vaidosa mentalidade. Já havia, sim, pensado em se matar, mais apropriadamente em se atirar na linha do trem, mas não tinha o perfil trágico; jogava no terreno da sutileza. Preferia, de verdade, sentir o câncer se fortificando, anunciando dia dia o quanto o fim estava próximo.

                                   Por outro lado, também não acreditava na doença como castigo ou coisa semelhante; odiava especialmente essas teorias modernosas que pregavam ser a pessoa a causadora de suas próprias moléstias. Nesse sentido, a arrogância, impáfia e a autossuficiência teriam sido os ingredientes certos para conceber-lhe tamanho mal. Bobagem. Obviamente que não há de se encontrar estofo científico que prove tal insanidade.

                                   Entrou a incubar a ideia de buscar prazer imediato em atividades prosaicas, pois não havia mais tempo a perder. Resolveu agir racionalmente em busca de coisas que lhe fizessem bem, e desejou mais que tudo empreender uma última viagem de trem, depois de tantos anos. Pesquisou estações, cidades, uma linha turística qualquer que a redimisse da frustração de não existirem mais os passeios ferroviários como em décadas passadas. Encontrou o que percebeu ser o roteiro perfeito. No interior sudestino, faria um percurso de vinte e quatro horas por montanhas e  serras, em um trem reformado que servia unicamente a ideia de passeio turístico para os aficcionados.

                                   Foi com um prazer pouco comum nos últimos tempos que se atirou no exercício de arrumar mala, checar horários e embarcar nesse sonho resgatado. Estava feliz; nos olhos, um brilho que lembrava a menina de mãos dadas ao pai subindo no vagão para alguma daquelas deliciosas viagens. Foi encaminhada a sua cabine-dormitório e pôde separar as coisas que carregava na necessaire: cremes, maquiagem, perfume. Ajeitou os remédios na gaveta, guardou a mala sob a cama e rumou ao encontro do vagão restaurante. Queria chá... um chá completo, com torradas, bolo, geleia, com a vista se descortinando ao lado pelas janelas panorâmicas. Já esperava pela sensação familiar, mas o que encontrou foi um estranhamento. As coisas não eram iguais; não havia aquelas pessoas lendo jornais, os talheres de prata ou a bela porcelana. O garçom não se vestia de branco completo, com luvas limpíssimas e modos elegantes. Não...não. As pessoas pareciam com essas das ruas, dos shoppings, de todos os lugares. Tentou então se concentrar no cheiro, aquele cheiro que era uma mistura de madeira e tecido, mas novamente não encontrou nada. Ele não existia mais. Percebeu, melancolicamente, que o passado era uma miragem.

                                   Retornou a sua cabine. Retirou um livro da bagagem e acendeu a luz de leitura sobre a cama. Lá fora já era noite, e o céu estava nublado. Não pôde contemplar estrelas ou a lua tal qual sonhara. Horas depois, os pingos tomaram conta da imensa janela, retorcendo as imagens que passavam rápidas. O chacoalhar do trem era puro deleite__essa sensação sim, imutável. Fechou os olhos, tentando aprisionar um pouco daquele prazer. Adormeceu quase imediatamente, sem que acordasse no dia seguinte. Uma pena, pois o dia amanheceu com uma profusão de cores, o céu azul, sem nuvens, o orvalho a brilhar nos pinheiros pelo caminho e o aroma dos eucaliptos a enebriar a viagem.



Escrito por Sílvia Abrahão às 21h59
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Amores líquidos

                                                                                              

                                                                             

                           O amor não desaparece com a passagem das gerações, bem sabemos. Mas se transforma. As relações afetivas na modernidade que o digam. Nunca o amor pareceu tão estranho, amuado, confundido com outros fenômenos mais sexistas do que românticos.

                  Vivenciamos a era das possibilidades, quando tudo pode; tudo é concedido, permitido. E aquele que não se adapta à festiva liberdade promulgada por uma sociedade de valores confusos é logo taxado de antiquado, conservador ou, o mais infame dos destratos, preconceituoso. Mas será que esse quadro se adapta a todos? O fato de discernir sentimentos mais nobres e apreciar princípios de relacionamento mais tradicionais fazem de alguém um cidadão "non-grato" ante o sistema vigente, o qual alardeia a efemeridade como símbolo de busca pelo prazer. É díficil, ademais, responder a questões que colocam à prova um novo modelo existencial, uma vez que o que se nota em tempos de francas escolhas amorosas é que há um grande número de pessoas que andam à procura de encontrar aquilo que de alguma forma possa lhes trazer redenção e amparo.

                  A mídia não nos poupa de imagens que ratificam o quadro de permissividade hoje tão amplamente propagado; casais se separam com uma velocidade cada vez mais inquietante, e pouca discussão é gerada a respeito. Separa-se por que, é preciso que todos entendam, era esta a melhor decisão a ser tomada, e ponto final. Os incomodados que se frustrem, pois o mundo continua a girar, os ex-cônjuges a namorar e os dias a trancorrerem independentemente do inconformismo alheio. O aforismo "ninguém é de ninguém" nunca esteve tão moderno; a guerra em que se transformou a convivência a dois testifica a falta de paciência, amorosidade e entrega nas relações do século 21__ o que, é bom que se diga, não tem nada a ver com ser hétero ou homossexual, jovem ou maduro, rico ou pobre. A crise, democraticamente, alcança-nos a todos.

                 A fragilidade dos laços afetivos é notável no cotidiano de reclamações que se escutam sub-repticiamente entre machos e fêmeas. É bom que se observe, no entanto, que há um progresso conquistado quanto às escolhas individuais amorosas, o que em grande parte se deve à independência financeira que fez com que  muitas mulheres alcançassem direitos inequívocos em uma sociedade com pendor machista no que concerne ao seu "modus vivendi". Por outro lado, aqueles que fingem se adequar ao modelo reinante de permissividade, empreendendo um simulacro repleto de falsas expectativas, terão uma triste colheita à frente: frutos amargos como resposta a relacionamentos vazios, físicos, líquidos.

                 É bem verdade que o encontro de amor nunca foi algo simples na vida do ser humano; não é exato, muito menos emite garantias. Contudo, é preciso se entender que antes do outro, e de suas querências, estamos nós. Sim, a autenticidade apresenta-se como o mais promissor certificado de respeito e autoestima; uma oportunidade para exercitarmos nossa condição de seres humanos íntegros diante da nossa capacidade amorosa, sem a necessidade de subvertermos princípios para nos adequar ao "mainstream" vigente.

                



Escrito por Sílvia Abrahão às 20h40
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Tormenta

                                                                            

                               Aquele barulho a angustiava. Todas as noites, na hora de dormir, procurava uma forma de conter aquela música fina, aterrorizante, que saía pelas frestas da porta de vidro da varanda. Cerrava as cortinas, preparava-se para deitar e aquela melodia começava seu intento. O vento lá fora parecia um ser disforme, algo enigmático que ganhava mãos e braços como se desejasse raptá-la, catapultando-a aos seus domínios. 

                   O fato é que começou a ter medo da noite, do escuro; medo de dormir. Todo o ritual de despedida de um dia cansativo de trabalho estava se transformando em uma tormenta. E como se não bastasse o terror que sentia com os olhos abertos, nos sonhos também tinha projetado o mesmo inferno. Perdeu as contas das vezes em que teve pesadelos com o vento rompendo o vidro das portas e janelas, adentrando sobre o lençol e atirando-lhe para fora, com um som gutural assustador. Às vezes, no meio do dia, olhava o horizonte e refletia, desolada, sobre ele estar ali se formando, forte, para atacá-la mais tarde.

                   Naquela noite o vento mostrava-se ainda mais intenso; o som uvular enchia todo o quarto, alto, altíssimo. Coberta pelo lençol à altura do rosto, trêmula, ficava imóvel na cama, incapaz de mexer um músculo que fosse, atingida por um temor que a paralisava. Outros ruídos estranhos também se faziam notar em meio ao vendaval sonoro de aflições; era como se ouvisse vozes longínquas, incompreensíveis, a se misturar com o retumbar de objetos atirados e folhas que se desprendiam dos galhos, atingindo a porta de vidro. Quando conseguia pegar no sono, exausta, dormitando em intervalos fragmentados, vinham os tais sonhos, novamente atordoantes.

                  Discretamente, perguntava para algumas pessoas o que achavam do tempo, da temperatura à noite na cidade. A resposta, invariavelmente, era a mesma: calor, uma brisa fraca, quando existia, e a necessidade do ar condicionado no máximo. Todos relatavam estar com saudades do outono. E nesses instantes, sentia-se estranha, amedrontada ainda mais, sem conseguir discernir o fenômeno que vivenciava. Mas ela não tinha dúvidas sobre o que estava acontecendo, sabia que o vento a observava, a seguia, a contemplava... mansamente no início, ganhando forma e volume, rompendo todas as pequenas brechas do apartamento para entrar sem ser convidado, e então iniciar sua sinfonia macabra.

                  Havia tido uma ideia, dormir na sala, afastando-se do quarto que imaginava mais receptivo ao vento pela presença da porta de vidro da varanda. Mas foi um engano.  Através da persiana clara, pôde ver o ar revolto, acelerado, inconteste no seu poder a chibatar a janela pequena, ainda mais destemido, mais raivoso. Era como se a castigasse pelo desacato, impingindo-lhe terror como nunca antes. Os sons, por sua vez, pioraram...era como se alguém assobiasse aquele recital soturno a um palmo de seu ouvido; um timbre cavernoso e profundo.

                  A cada dia acordava mais cansada, pálida, com poucas forças. Quase não dormia mais. Pela manhã, o céu azul e o ar parado não davam qualquer pista das desventuras noturnas. Trabalhava, cumpria obrigações cotidianas e voltava para casa. Ao horário do pôr-do-sol, já sentia uma mudança na atmosfera; captava o enigma invisível a espreitá-la, ganhando vida entre os prédios e as casas. Nunca havia falado com ninguém a respeito, pois tinha receio que as pessoas a achassem louca, psicótica, esquisofrênica. Também não pensara em procurar ajuda psicológica, pois o que vivenciava não era algo criado na sua cabeça, era sim real__ podia, afinal, sentir o vento acariciando seu rosto, insolentemente forçando passagem sob o lençol. Um vento que entrava magicamente por portas e janelas fechadas.

                  Depois de quase duas semanas de pesadelos interminentes e de sono escasso, resolveu dormir uma noite no escritório. Levou para sua sala um colchonete, um lençol e um travesseiro, tudo arrumado de forma discreta, para que ninguém notasse o volume e fizesse perguntas, pois a bem da verdade, concordava intimamente, tratava-se de um ato esdrúxulo, algo que fugia às leis comportamentais. Tinha ciência que começava a se deseperar e fazer coisas que fugiam a qualquer padrão de normalidade. Mas também não se sentia normal, ao contrário, cada vez mais irritadiça e apática, só pensava em dormir. Poder fechar os olhos calmamente, refestelar-se sob as cobertas, relaxar ao som do silêncio, sem qualquer ruído atormentador, sem qualquer partícula de ar a acariciar-lhe soturnamente a face.  Por um instante quase sorriu ao imaginar o prazer que sentiria ao se atirar nos braços de Morfeu.

                  O dia se transformou em noite, e ela preparou tudo a contento para seu refúgio: comprou lanche, refrigerante, levou revistas. O escritório ficava no vigésimo andar de um edifício moderno, todo revestido por vidro. Não havia janela na sua sala, apenas na outra, ao lado, conjugada; também não havia portas, apenas divisórias. As janelas, ademais, nunca eram abertas; em todo o prédio os ambientes eram climatizados. Estendeu o colchonete, arrumou o travesseiro, despiu-se da calça que usava, das sandálias, e de camiseta deitou-se candidamente. Estava feliz. Tal qual a criança que um dia fora, parecia empreender uma traquinagem, um segredo que guardaria apenas para si. Abriu uma das revistas e começou a ler, relaxada. Ainda era cedo, mas os olhos começaram a pesar.

                  Em poucos minutos, estava adormecida. Uma ou duas horas se passaram quando acordou assustada, escutando um barulho estranho. Por um momento, sentiu-se confusa, esqueceu onde estava, mas rapidamente se concentrou. E então ouviu nitidamente aquele som familiar. O vento irrompia frenético, vindo da sala ao lado. Pela divisória, enxergava as sombras imperativas do vendaval açoitando as janelas imensas do escritório. Cobriu-se toda, no mesmo ritual de sempre, deixando de fora apenas os olhos desesperados. O som ficava cada vez mais forte, trazendo sussurros, gritos, uma série de ruídos incompreensíveis; seus cabelos estavam revoltos, desarrumados pela chibata do ar enfurecido, apesar de não haver qualquer espaço livre que explicasse sua passagem. As sombras pareciam cada vez mais próximas, e delineavam-se em braços compridos que chegavam cada vez mais perto.

                  Uma força interior a fez se levantar, diferentemente das vezes anteriores, quando sempre permanecera paralisada pelo pânico. Saiu da sala e adentrou o espaço maior, onde ficavam as grandes janelas de vidro. A vista era realmente assustadora, e sem que houvesse uma tempestade, a noite, do lado de fora, iluminava-se progressivamente, e então podia se avistar o vento forte, impávido, imperioso através da vista panorâmica. Ela tentou entender o mecanismo daquelas vitrines de vidro e conseguiu destravar as alavancas de segurança, abrindo uma das janelas. Nesse mesmo instante, foi abraçada por uma lufada das mais magnânimas, e caiu planando como se possuísse asas. Despencou sem pressa, acariciada agora por uma brisa fresca, suave. Não havia mais sons tenebrosos, apenas a música encantadora da noite. Não existia mais medo, nem raiva, finalmente estava livre.

                   

                  

                 



Escrito por Sílvia Abrahão às 19h52
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É falta...

                                                                                                 

                        Nós, brasileiros, não somos muito afeitos à arte de reclamar. Ao contrário, nosso espírito indolente nos remete ocasionalmente à placidez de horizontes de calmaria no lugar do enfrentamento de situações que, bem sabemos, podem nos tirar do sério. Alguns preferem mesmo fingir que nada de errado aconteceu a ter que tirar satisfações sobre algo que, ironicamente, é do seu direito.

                  Não raro, acionamos o mecanismo do "deixa pra lá" quando imaginamos à frente o caminho a ser desbragado. Sim, reclamar dá trabalho; sim, reclamar não é divertido; sim, reclamar causa um certo constrangimento e desconforto. Mas não, não podemos jogar para escanteio algo pelo qual pagamos, lutamos; que conquistamos. Seja lá o que isso represente, de um objeto prosaico a uma grande aquisição, temos a sensação de pertencimento esmorecida quando somos aviltados na nossa condição de consumidores cônscios de seus direitos e obrigações. Em oposição aos americanos e europeus, que ao menor sinal de mau funcionamento de um serviço reclamam de imediato, propiciando uma forma de atendimento ao consumidor personalizada e atenta, nós "abstraimos" os problemas sob pena destes cansarem nossa beleza, afinal somos inimigos mortais de qualquer manifestação de estresse, como se isso fosse de fato possível.

                 A cena não pode causar estranhamento: em lojas de conveniência, supermercados, postos de gasolina, pontos comerciais os mais variados, as pessoas que reclamam de algo são estigmatizadas. Nas filas, os olhares de impaciência, desprezo e ira são comuns: mas não contra o estabelecimento, o atendente inepto, o gerenciador, mas contra aquele que se queixa, que perturba a ordem social. Todos têm pressa, e o consumidor desgostoso rouba um tempo precioso. Esperar um gesto de solidariedade nessas horas, olhar para os lados em busca de um conforto, de um lampejo que seja de companheirismo diante do entrave enfrentado é o mesmo que assinar uma sentença de imbecilidade ou, no mínimo, de inocência; para alguns ainda sobra a pecha de neurótico ou destemperado. Como já apregoou um compositor popular, é melhor contar apenas "com o sangue que corre nas próprias veias".

                 Em clínicas particulares, pacientes esperam de forma acintosa pelo médico que os receberá num consutório que reverte a lógica matemática da possibilidade de atendimento por pessoa em tempo minimamente civilizado; quando finalmente o cidadão é  levado a sua presença, o que diz este último? Agradece pelo médico estar ali, por escutá-lo em suas aflições, e, permitam os deuses, curá-lo do mal que o aflige. Se alguém se atrever a levantar uma voz dissonante pelas inúmeras horas passada além daquela prevista para a consulta, o primeiro olhar de reprovação vem da recepcionista, o segundo do vizinho da cadeira ao lado, que prefere "não se meter" em qualquer impasse que o macule, afinal os doutores não podem ser desacatados. Apesar dos operadores de telemarketing constarem do ranking de profissionais mais estressados do país ( o que não deixa de ser compreensível pela pressão que sofrem),  preparar-se para falar com qualquer um deles exige concentração, entoação de mantras e trabalho psicológico dos mais profundos; não são poucas as situações em que nos desesperamos com as inúmeras transferências de ligações, com o mau entendimento de nossos problemas, com o pouco esforço observado diante de nossas solicitações. O desfecho de tal quadro: simplesmente deixamos de reclamar, traumatizados.

                  No Rio, há alguns anos, um fato chocou a população e, principalmente, os estudiosos da mente humana. Em uma reunião de condomínio, num bairro de classe média, uma moradora resolveu contestar as contas apresentadas pelo síndico, que não batiam com as notas apresentadas. Segundo relatos, a mulher falava pausadamente, com educação, até ser rechaçada pelos outros moradores, cansados e impacientes. Diante da insistência da senhora, que não era casada e não tinha filhos, um bate-boca se iniciou; dentre os xingamentos escutados contra a reclamona, uma expressão se destacou: "Isso é falta!" Ao ouvir tal descalabro, a mulher se transformou; atingida na sua condição de fêmea supostamente solitária, sem vida sexual, sem atributos que poderiam fazê-la detentora de capacidade de sedução, terminou todo o imbróglio disparando um tiro na cara de seu detrator. Um crime que ficou na memória de muitos pelo tom inusitado; pela idiossincrasia de seu perfil.  Muitas vezes, quando mulheres reclamam contra algo errado, seja em supermercados, lojas de departamento, barracas de rua, a frase "Isso é falta" oportunamente se faz presente. Trata-se, sem dúvida, de um preconceito dos mais torpes, de um imperdoável ato de desrespeito.

                    Em um país como o Brasil, de altíssimos tributos, de impostos embutidos em tudo o que consumimos, o papel inerte que desempenhamos diante daquilo que não funciona é no mínimo esdrúxulo, e inaceitável. Reclamar é um direito conquistado a partir do momento em que nada nos é agregado gratuitamente. Está mais do que na hora de mudarmos alguns valores, revendo antigas convicções. É prazeroso ser elegantemente atendido em qualquer lugar, comprar coisas e ser recompensado com a qualidade imaginada; mas é preciso também ter voz ativa no instante em que o percurso mercantilista não se faça pleno em suas atribuições; não uma voz neurótica e histérica, e sim em consonância com a realidade em que se vive: um mundo capitalista que produz e vende, o qual não sobreviveria em sua impáfia sem a presença dos que consomem e pagam caro por isso.



Escrito por Sílvia Abrahão às 20h05
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Banalização do mal

                                                                                                  

                                           A mídia tem reservado grande espaço para assuntos que envolvem tragédias das mais desbragadas, seja em páginas de jornalismo impresso ou eletrônico. Este último, é verdade, ainda mais espetacular, contando com a audiência fiel de  milhões de pessoas. E todos nós, por sua vez, transformamo-nos em público complacente do circo de horrores em que se travestem alguns dos fatos que desfilam às nossas vistas na contemporaneidade.

                              Acusados de crimes hediondos, que chocam pela pervesidade e barbárie com que foram cometidos, adentram aos  nossos lares diariamente, ocupando grande parte do tempo de noticiários sedentos de atenção. Essas pessoas são tão extraordinariamente expostas que nos acostumamos a elas; são seres dos quais ficamos íntimos, por vezes os identificando como celebridades, o que convenientemente acaba por diminuir o peso das monstruosidades das quais são autores. E é assim que aquilo considerado__ a priori __ grave, dilacerante, incômodo para as leis humanas, reveste-se de cores pastéis, tornando-se menos ofensivo e degustativo ao nosso paladar.

                             A atriz norte-americana Lindsey Lohan, acusada de dirigir embriagada, colocando em risco a própria vida e a de terceiros, de portar drogas, de desobedecer a programas obrigatórios de reabilitação, posa para fotos exibindo sua tornozeleira de monitoramento de consumo de álcool como um complemento fashion, aleatória a qualquer sinal de constrangimento que tal objeto possa suscitar. Ao ter sentença de prisão decretada em tribunal, protagonizou uma cena digna de um drama da  vida real: inconsolável, debulhou-se em lágrimas nervosas. O fato se deu, talvez, por não acreditar que pudesse, enfim, ser encarcerada ante seus desajustes. E o que faz a mídia mundial? Repercute o episódio "ad nauseum", de forma a banalizar seu cerne, projetando a moça como estrela inconteste de um universo carente de astros mais reluzentes.

                             Programas vespertinos de entretenimento "light", que difundem temas como moda, culinária e comportamento, rendem-se aos assuntos trágicos que ocupam o resto da grade jornalística das emissoras e agora entrevistam bandidos ao vivo. A apresentadora Ana Maria Braga recebe Fernanda  Gomes, a quem recobre de elogios à beleza, tratando-a com a deferência respeitosa com que entrevista médicos, advogados e outros personalidades. A mesma moça loiríssima, a de se lembrar, estava sendo investigada por cumplicidade em crime de sequestro, que culminou com o desaparecimento de Elisa Samúdio, com os dias contados para ter a prisão decretada__ como aliás de fato ocorreu. A resposta da apresentadora às críticas surgidas após tanta exposição, num programa que prima por um perfil diferenciado, intensificando um crime já então tão divulgado, é a de que "é preciso levar ao público os acontecimentos, afinal é sobre isso que as pessoas estão querendo saber".

                            Mas será mesmo que é isso que queremos? É disso que estamos precisando? A banalização dos crimes de morte, a espetacularização da bandidagem não parecem estar, ademais, surtindo um bom efeito sobre todos nós. Ao contrário, estamos insensíveis, descrentes e atormanetados diante da figura do ser humano. Em alto som, bradamos não acreditar mais em nada ou em ninguém; somos autossuficientes, assustados e, ironicamente, inertes diante do painel de violência que nos consome. Ou seja, também não somos capazes de lutar em prol de uma revolução de costumes que nos resgate desses imbróglios cotidianos. Em suma, sobra-nos a imagética do crime como um ritual a ser assistido indolentemente diante da TV ou pela internet, sem que uma ampla discussão seja gerada a respeito. Acostumamo-nos ao mal tal qual uma novela assistida em capítulos, até o limite de sua narrativa, quando afinal desejamos outro "mal", outra narrativa que possa nos distrair e prender. A única diferença é que este espetáculo grotesco não é ficção, e  o personagem principal, estupidamente, pode ser qualquer um de nós.



Escrito por Sílvia Abrahão às 12h24
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Filme: Bem-Vindo

            

                                                                                                

                                                     

                     O cinema mundial rende-se à temática da imigração, desempenhando um exercício de cinematografia dos mais expressivos. Exemplos de roteiros de primeira grandeza não são poucos, a começar pelos irretocáveis "Grand Torino" e "O Visitante", ambos reverenciados com indicações ao Oscar.

                     Eis então que surge "Bem-Vindo", tradução de cinema de primeiríssima qualidade, fazendo coro a essa safra das mais auspiciosas. Dessa vez temos a história de Bilal, um garoto curdo de 17 anos que sai do norte do Iraque para a França (país que mantém tratado de não extradição para refugiados de nações em guerra). A busca de Bilal, obviamente, é em prol de melhores condições de vida, tal qual outros milhares de imigrantes__homens e mulheres. Mas o desejo do garoto, na verdade, é chegar à Inglaterra, onde está residindo a jovem, também curda, por quem é apaixonado, Mina. É em Londres que Bilal imagina encontrar um bom emprego, ajudar a família e ainda tentar, no futuro, uma chance no Manchester United__ pois tem o sonho de ser jogador de futebol. Nesse instante percebemos como a ingenuidade do menino pode lançá-lo a ações de perseverança ao mesmo tempo que o cega diante dos limites que a vida lhe impõe. Bilal ruma em linha reta, destemido, sem desvios, sem autocomiseração; ele é a metáfora do cavaleiro pobre em busca de sua princesa prometida para outro, e portanto não tem tempo a perder.

                    Para os excluídos, contudo, as coisas nunca são fáceis, e chegar à Inglaterra transforma-se em uma ode das mais perigosas. Por terra, ar e mar, todos os caminhos são permanentemente policiados; a Europa rejeita os estrangeiros pobres, atira-lhes à face "ad nauseum" o quanto não são bem-vindos (daí a ironia do título). Depois de dez semanas de tentativas frustradas de chegar a terras britânicas, ele paga 500 euros para viajar com outras dezenas de ilegais dentro de um caminhão de carga, e novamente a empreitada é mal sucedida.. Bilal então tem a ideia de aprender natação em uma piscina pública com o intuito de atravessar a nado o Canal da Mancha__ para ele talvez a única chance de chegar ao Reino Unido e encontrar Mina.

                    Em uma narrativa linear, por vezes dura, triste e sempre realista, torna-se emocionante perceber como o sonho de um garoto refugiado pode nos retirar do conformismo, impingindo-nos todo o tempo a uma sensação de desconforto diante do fato de que, bem sabemos, não somos livres para ir e vir. O retrato que o filme passa da França contemporânea não poderia ser mais desolador: um país, como seus vizinhos europeus, sufocado com a presença de imigrantes ilegais, os quais são tratados com a intolerância e discriminação por vezes semelhantes as concedidas aos judeus alemães à época do nazismo. Uma das cenas mais fortes do filme é a que retrata homens de pele morena, feições curdas, sendo expulsos de um supermercado, mesmo mostrando o dinheiro que carregam para adquirir produtos de primeira necessidade.

                    Trata-se, ademais, de um filme sem meios-tons, mas nem por isso incapaz de fazer os sentimentos aflorarem, e de certa forma ainda mais autênticos, pois em nenhum instante se fazem valer da primazia do pieguismo. A transformação pela qual passa Simon, o professor francês de natação, interpretado magnificamente por Vincent Lindon, é talvez o cerne de toda a narrativa, e seu maior mérito. Ele renasce do seu torpor existencial, do seu individualismo, do seu rancor diante da vida, para abraçar uma causa mais que ideológica, amorosa. Ao ajudar Bilal, Simon (amargurado após um casamento desfeito) rompe com sua inércia, com seus fantasmas interiores e projeta-se diante da oportunidade de acreditar em algo, eximindo-se da desesperança que até então o corrompia.

                    "Bem-Vindo" é um filme para muitas discussões, entre as quais a xenofobia (Simon possui um vizinho em cujo tapele, à porta, lê-se "Welcome"; o mesmo homem que o denuncia à polícia por estar protegendo um imigrante), mas de qualquer forma__como em toda grande obra__ as análises rendem-se a possibilidades infinitas. Ao término, fica a sensação de esmorecimento, a reflexão que nos leva a crer que palavras como "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" não passam de uma simbologia de araque, muito distantes daquilo que de fato representam.



Escrito por Sílvia Abrahão às 19h45
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Livros para sempre

                                                                                             

                            Muita discussão vem sendo gerada sobre o possível fim dos livros. Ou melhor dizendo, o livro de papel tal qual conhecemos hoje. O livro que traz páginas impressas de diferentes tamanhos e formatos; aquele que carregamos de um lado para outro, às vezes amassamos, maltratamos, esquecemos por aí. Ou então: reverenciamos como a um ente da família, por vezes até com mais respeito, emprestando-o como a um tesouro, em um ato benevolente de compartilhar com o semelhante aquilo que julgamos uma preciosidade, talvez mesmo a chave da nossa sabedoria e sensibilidade.

                   Quem gosta de ler, entende a cena: um amigo resolve passear os olhos pela nossa estante de obras abarrotadas de títulos referentes a gêneros distintos, todos já tão bem dissecados e posteriormente amados; logo em seguida, ele aproxima os dedos como garras para retirar um volume em especial, e com a obra em mãos, vira-se com aqueles olhos brilhantes e um sorriso de canto que tão bem sabemos traduzir. Sim, chegou o instante que adoraríamos jamais existir: "Você pode me emprestar este livro?"  Nossa vontade nessa hora, obviamente, é dizer que "não", pois aquele livro é como a um filho a quem temos medo que se desgarre de nossa existência, que aquelas páginas marcadas significaram momentos de epifania absoluta e que há marcas indeléveis de nossas lágrimas misturadas àquelas letras, e que nossa vida mudou depois da leitura daquele romance. E ainda mais: que as mãos dele sobre a brochura nos causa repulsa e medo, e que somos egoístas, não gostamos de compartilhar, que...que...

                   Mas lá se vai nosso livro, pois na real não temos a coragem necessária para empreender tal negativa a um amigo bacana, por quem temos admiração e que já nos demonstrou tanto apreço e consideração. E, inconscientemente, despedimo-nos da obra em suas mãos ratificando as qualidades do autor, da história, da linguagem, talvez com um certo desespero na voz, como a saber, no íntimo, que jamais avistaremos novamente aquele tesouro impresso o qual idolatramos. Em seu lugar na estante sobra um buraco, físico e metafórico, o qual tapamos rapidamente comprimindo os outros volumes, de forma a nos fazer esquecer logo da eminente presença daquele bem raptado.

                   O amor aos livros já rendeu uma série de outros livros, verdadeiros tratados sobre a cultura desse instrumento milenar. José Mindlin, o maior bibliófilo brasileiro, detentor da mais robusta biblioteca particular do país, tratava as obras acolhidas em seu acervo com o esmero necessário à perpetuação dessa relíquia; após sua morte, aos 95 anos, todos os livros de sua coleção, cerca de 40 mil volumes, foram doados à biblioteca da USP. Mindlin legou a todos nós o cerne de sua paixão, algo que começou aos 13 anos de idade, então já cooptado pelo prazer que sentia na degustação literária. São palavras do grande intelectual: "A gente passa, os livros ficam".

                  A questão é: ficarão os livros? As projeções tecnológicas, ao contrário do aforismo visionário de Mindlin, apontam para outro caminho, o extermínio dos livros de papel. Tal qual as televisões antigas, com seus imensos tubos, transformaram-se em modernos aparatos de Led, os VHS se tornaram DVD, os discos de vinil viraram CDs, o computador portátil se banalizou, findando a produção dos retrógrados disquetes, sendo  lançados os i-pods e i-pads, chegou a hora dos e-books, os livros eletrônicos. O fato é que em algum instante da história eles serão a maioria. As editoras mundiais comemoram safras cada vez mais expressivas de lançamentos de obras eletrônicas e prometem números imperiosos para as próximas estações. Pesquisas ratificam a ideia de que este tipo de artefato é mais barato, mais viável, inconteste na sua capacidade de armazenamento de milhares de obras em um pequeno instrumento em formato prático e confortável ao leitor, podendo ser carregado para todos os lugares, com a vantagem de não se estar levando consigo apenas um volume, mas todos dos quais se dispõe. Aqueles que já possuem o kindle, por exemplo, e mais recentemente o Alpha, deleitam-se com a leitura de jornais diários, revistas e milhares de títulos que remetem a toda sorte de gêneros literários, acadêmicos, didáticos.

                  Ainda existem muitos desafetos diante dessa discussão; intelectuais renomados recusam-se a acreditar no fim dos livros impressos, como Umberto Eco, na obra "Não contem com o fim do livro", em que  coloca em jogo a efemeridade dos suportes duráveis, alertando-nos para a realidade das panes nos aparelhos eletrônicos, que podem esmorecer sem conserto técnico possível__ coisa, diga-se de passagem__impossível de ocorrer com um livro de papel. Há, claro, todo um questionamento sobre os bens de consumo e o fato de termos que nos adaptar a qualquer momento a uma nova dimensão tecnológica que exclui a anterior, o que acaba por promover o sentimento da ansiedade em todos, atirando-nos à face a necessidade intrínseca de nos sujeitarmos o quanto antes à modernidade e suas variadas instrumentalizações, sob pena de tornarmo-nos estranhos ao mundo em que vivemos. Nesse contexto, a ideia da posse do objeto tecnológico faz-se mais importante do que o elemento que o salvaguarda, ou seja, o próprio livro.

                  Aqueles que não têm interesse pela leitura não a farão seja em páginas de bonita e caprichada impressão ou diante de uma tela límpida de cristal. Os livros de papel certamente sobreviverão por gerações à frente, impolutos e necessários, despertando em muitos as mesmas sensações que outrora despertaram em outros; já os livros eletrônicos ganharão cada vez mais terreno, gradativamente se multiplicando e, por que não, propiciando a primazia da emoção e da sabedoria com o estofo dos títulos adquiridos. Se no futuro os livros serão encontrados em museus, como hoje vemos artefatos antigos, é por que o caminho da evolução assim nos guiou. Mais do que o instrumento eletrônico em si, talvez a questão devesse, nesse sentido, girar sobre a produção literária e acadêmica que encontraremos nos próximos séculos. Essa sim, uma discussão ainda mais necessária



Escrito por Sílvia Abrahão às 00h40
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Por exemplo...

                                                                                         

 

                                        O atual ídolo das pré-adolescentes e adolescentes brasileiras é um cantor chamado Luan Santana. Ele tem 19 anos, reclama por não ter mais vida pessoal diante da agenda superlotada de shows, mas rapidamente complementa dizendo-se realizado. Alguém já escutou o "extraordinário" repertório do rapaz? Pois é, se não fossem os fatos, seria difícil acreditar no frisson todo que este novo fenômeno causa, mas contra fatos, bem sabemos, não há argumentos. Será mesmo?

                          A verdade é que estão faltando referências para grande parte da juventude. Boas referências, daquelas que se prendem como a um alien escondido nas entranhas. Referências que irão nortear nossos gostos, nossas escolhas, as comparações que traçaremos vida afora, para que nunca mais possamos nos contentar com pouco. Sim, pois os bons exemplos são como símbolos de uma confraria nada secreta, amados por aqueles que enxergam além das linhas, à frente do óbvio. Adequar-se ao senso comum, ademais, é um exercício de indolência, de falta de coragem e ausência de estilo, algo bem fácil de se notar na sociedade contemporânea.

                          Quem são os exemplos da modernidade? Quais seus nomes? Em que profissões atuam? Em um programa interessante sobre a vida escolar dos ídolos, no canal Futura, Hortência, a Rainha do Basquete, tem sua vida de estudante revisitada. Seus antigos boletins são expostos; professores e colegas do passado, entrevistados. Ao final, entre muitos risos, a ex-jogadora e o apresentador constatam que ela foi realmente uma aluna ruim, e difícil. Hortência não gostava da escola; odiava ter que carregar livros e cadernos. Ela apreciava a liberdade, e amava jogar basquete__ o que aprendeu a fazer com galhardia, tendo se transformado no mito esportivo que tão bem conhecemos. Diz ela que a sala de aula era como uma gaiola, onde tal qual um pássaro se sentia aprisionada. Ao final, impoluta, salvaguardada pelas glórias conquistadas, vaticina: "A escola não foi importante para mim, o que significa que nem sempre ela é o ideal". O apresentador, infelizmente, perdeu a grande oportunidade de contestá-la. Ele poderia ter dito que ela não serve de exemplo nesse contexto, pois racionalmente falando, quantas Hortências surgiram? Quantos dispõem de um talento pessoal devastador que os habilite ao abandono do estudo visando a uma jornada inequívoca de sucesso? Quantas jovens bonitas se transformarão numa ubër model, como Gisele Bündchen?

                          Apesar dos novos recursos tecnólogicos, das fontes informativas à disposição, da liberdade de expressão conquistada, muitos jovens estão perdidos diante de suas escolhas profissionais. As instituições educacionais promovem para alunos vestibulandos uma série de recursos para ilustrar o caminho rumo ao mercado de trabalho. São palestras, seminários, feiras de profissões; há manuais à venda, almanaques, e claro, a internet. E o que se tem, em sala de aula, é um número grande de rapazes e moças apáticos, sorumbáticos, sem expressão no que concerne a uma linha específica de atuação. Muitos se revelam confusos, optando por cursos de áreas díspares, sem correlação, para os quais não demonstram especial encantamento ou aptidão. A maioria é incapaz de pronunciar um nome importante na profissão que estão prestes a abraçar. Não conhecem exemplos por que não lhes interessa, muitas vezes, o mérito dos anônimos. Cooptados por referências midiáticas, vivem num mundo à parte, onde os nomes enaltecidos são de celebridades sem estofo intelectual.

                         Durante muito tempo, disseminou-se que o mais célebre cientista do século 20, Albert Einsten, teria sido um péssimo aluno. A mais recente e completa biografia já escrita sobre o físico prova exatamente o contrário, ratificando a ideia de que seu talento em exatas já era notável. Além do suporte genético, a quantas horas de estudo, experimentos, dedicação terá se submetido Einsten? Sabemos bem, impossível de dimensionar, a ponto de sua vida ter se transformado em sinônimo da ciência que evocou. Em todas as áreas, seja na arquitetura, na arte, na medicina, os grandes nomes traduzem pessoas que sempre se esforçaram sobremaneira diante daquilo que executaram, sem que o quesito sorte tenha se sobreposto ao talento, sem que o privilégio de uma mente brilhante tenha lhes eximido do exercício da labuta.

                        Seria interessante que programas de auditório campeões de audiência e jornais de destaque, em um país eternamente refém dos modelos televisivos, pudessem permanentemente trazer para seus quadros de entretenimento o exemplo de pessoas que venceram através do seu esforço pessoal em atividades de todos os ramos, promulgando uma realidade mais condizente aos símbolos existenciais do atual século; convidar jovens que conquistaram os primeiros lugares em universidades concorridas; entrevistar seres humanos que tenham algo a acrescentar, numa reflexão mais consciente sobre o que somos ou poderíamos vir a ser. Exemplos estão em falta, e deles carecemos para acreditar que alguém conseguiu aquilo que a nós ainda resta tentar.



Escrito por Sílvia Abrahão às 10h50
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Palavras que ferem

                              

 

                                                                                                

                                                 Ninguém gosta de ser achincalhado, ironizado, ridicularizado. Estar calmamente caminhando pela rua e, ao passar por três ou quatro seres humanos, ouvir uma série de comentários duros, entremeados por risadas de escárnio, acerca de sua aparência. E como seria esta? Qual o motivo para as piadas manifestas: ser gordo, muito magro, alto demais, ter orelha de abano, muitas espinhas no rosto? Ou ser negro, albino, gay? O fato é que a dor provocada pela ofensa contra nossas características físicas ou ideológicas é das mais intensas; uma lembrança triste que podemos guardar por muitos anos à frente, por vezes acondicionada num espírito que jamais se recuperará dessa violência verbal.

                                Na era do politicamente correto, são muitos os debates que levam teóricos e simpatizantes a traçar as diretrizes responsáveis por uma existência livre de intolerâncias e preconceitos. O que pode ou não pode, o aceitável e o desrespeitoso ganham nuanças de discussão acadêmica e jurídica, mas no âmbito do nosso prosaico cotidiano, continuamos a observar toda sorte de maus tratos entre os ditos "civilizados" na sociedade que habitamos. Alguns, é preciso que se diga, não possuem qualquer constrangimento no instante de se insurgir contra o outro, sob pena de não perder a chance de parecer engraçados e destemidos ao execrar seu semelhante; há um status subliminar que engrandece aqueles "corajosos" o suficiente para o destrato e a aniquilação.

                               O bullying, esse estrangeirismo tão presente na esfera das escolas e na internet, é apenas um conceito revisitado, na essência tão antigo quanto as discussões a respeito de ética e de valores. Tal fenômeno nos alerta para uma realidade nefasta, a de que os homens sempre tiveram problemas de aceitação, e a juventude, apesar de buscar pela diferença, por comportamentos "avant garde", é a primeira a repudiar o novo, a refutar aquele que não se enquadra nos modelos vigentes__ ironicamente produzindo aí um universo de relações bem pouco moderno, muito pelo contrário, repleto de ranços estereotipados.

                              Não deixa de ser surpreendente observar que muitos daqueles que se insurgem contra pessoas "diferentes" são eles próprios vítimas de algum preconceito. Sim, é facilmente perceptível feios que riem de outros feios, os menos abastados intelectualmente fazendo piadas de seus congêneres, meninas que adoram relatos de menosprezo contra o feminino. Os exemplos são muitos, e as crueldades incomensuráveis. Nos Estados Unidos, virou símbolo de luta contra a aniquilação moral um acontecimento que ganhou força através da web, o novo quartel general das brilhantes mentes do mal: o dia de bater em ruivos. Entenda-se: alguém foi capaz de inventar e decidir que meninos e meninas ruivos são inferiores e deveriam apanhar. O resultado de tamanho descalabro, o previsível__ descobrir endereços eletrônicos que divulgaram a mensagem, deter suspeitos, conversar com pais, ratificar a importância de palestras contra o bullying, providenciar ajuda psicológica às vítimas.

                             Já disse Aristóteles que "a educação tem raízes amargas, mas são doces os seus frutos". Talvez, em vista de tantos dissabores observados no trato com o alheio, possamos entender que falta a muitos uma educação mais bem alicerçada, de valores mais sólidos, que punam com primazia as deliquências cometidas por aqueles que ainda estão formatando sua personalidade. Os jovens prescindem de referências, e os pais não podem esmorecer quando o que está em jogo são os valores que seus filhos carregarão vida afora. Com quem nos relacionamos, com quem mantemos laços de afinidade__ a boa e velha influência ainda é um termômetro e tanto no que concerne às atitudes que tomamos. Se na idade adulta somos passíveis de nos influenciar por hábitos e discursos alheios, o que diremos daqueles que apenas estão começando sua jornada existencial?

                            A verdade é que de alguma forma somos todos intolerantes quando algo não condiz com aquilo que acreditamos; quando algo não combina com aquilo de que gostamos. Assim foi no passado, em milênios anteriores, e assim possivelmente sempre o será. Mas reza as leis da civilidade que possamos ser capazes de conviver em equilíbrio, respeitando as diferenças, as escolhas que não condizem com as nossas próprias. A partir do instante em que entendermos que a felicidade na qual acreditamos não é necessariamente na qual acredita nosso vizinho, e que não há nada de errado nisso, um grande passo já terá sido dado. Não necessitamos ser idênticos, iguais na nossa aparência e nas nossas ideias; carecemos, isso sim, de sensibilidade e ética. Portanto, o cuidado com nossas palavras, com nossas ações, faz-se imprescindível.

                           Ninguém precisa ser um grande estudioso da alma humana para constatar que há indícios de baixa autoestima e falhas de aceitação naqueles que insistem em ofender o outro; geralmente a prática dos insultos é acompanhada de fantasmas interiores que teimam em se alimentar da fragilidade alheia até como forma de encobrir a própria. O que não cabe aos demais é fazer coro com esse tipo de pessoa. Não se pode fortalecer tal atitude, nem enaltecê-la. Ademais, a lembrança de um constrangimento sofrido poderá nos alertar para uma dor excruciante, a qual não desejamos obviamente que se repita, dessa forma talvez possamos brecar o ímpeto das galhofas e do aniquilamento contra quem muitas vezes mal conhecemos, ou nem mesmo conhecemos. De outro modo, sendo incapazes de aprender com a dor, só nos restará testificar que falta algo à nossa alardeada sabedoria.

                            



Escrito por Sílvia Abrahão às 19h14
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Aceitamos reservas!

                                                                               

                                   Algumas pessoas se dizem tímidas, mas na verdade são reservadas. Simplesmente não gostam de se revelar com quem julgam não compartilhar de intimidade suficiente para tal exercício. Obviamente, não há nada de errado nisso. Ao contrário, em época de tanta exposição, resguardar-se na medida da normalidade parece até bem louvável.

                     Há um mistério que ronda os mais reservados. Eles viram uma espécie de símbolo existencial. São capazes de expor opiniões sucintas, trabalhar realizando atividades em conformidade a suas prerrogativas, mas não veem a necessidade de estender a um plano pessoal assuntos os mais diversos. Ao contrário, preservam como a um tesouro secreto aquilo que consideram seu bem mais precioso: a vida privada. São pessoas que odeiam fofoca, e movidas pela coerência diante de suas ações, não atraem esse tipo de "prática social".

                     É bem irônico observar jovens "atrizes" que se expoem nuas em revistas (ou com trajes sumários) relatarem o quanto foi difícil tirar a roupa; algumas, autodenominando-se "extremamente" tímidas, têm que apelar para doses de bebidas alcoólicas para lhes garantir destemor e coragem. Realmente não deve ser nada fácil... talvez todo o ritual de fotos se assemelhe, para essas moçoilas, a uma sessão de tortura, pois sabemos bem a dificuldade que possuem os tímidos, em algumas ocasiões, até mesmo de cumprimentar pessoas em público, o que dirá revelar suas partes pudicas para milhares.

                    É claro que existem os falsos tímidos__ são aqueles capazes de toda sorte de gracejos, conversas em alto tom, observações cáusticas sobre o alheio apenas quando estão na companhia de terceiros, geralmente em grupelhos de duas, três ou quatro pessoas; sozinhos perdem a voz. Mas isso não é timidez, é covardia! As pessoas autenticamente reservadas são capazes sim de se colocar sobre os mais variados temas, são ativas em suas convicções, apenas não gostam da exposição acentuada de suas particularidades; elas costumam entrar e sair sem deixar brechas para a análise de um discurso repleto de pessoalidades, simplesmente por que seu universo íntimo não foi revelado.

                    É interessante se observar alguém que preza pela sua individualidade; de certa forma essas pessoas tornam-se bem atraentes. Muitos costumam carregar consigo uma postura de tanto autorrespeito que os outros reconhecem, invisivelmente, as linhas dos limites impostos, e não as transpoõem sob pena de estar cometendo um crime ao inquirir quem assim não deseja; quem não fornece brechas para perguntas de quilate especulativo ou de inconveniência. O que não significa dizer que os indivíduos reservados não possam ser execrados, afinal há público garantido para analisar qualquer um, qualquer coisa, como aqueles que adoram traçar verdadeiras teses a respeito de quem mal ou pouco conhecem, ainda mais curiosos diante de um enigma que não conseguem decifrar.

                    Reservadas ou extrovertidas, a verdade é que o valor das pessoas se mede pelo seu caráter, pela força de sua integridade. Mas é fato que o comportamento daqueles que optam por uma existência "low profile" pode trazer consigo tintas de cores bem instigantes, como a nos convidar à aventura de uma descoberta__ algo muito raro numa sociedade de comportamentos escancarados, de afetos explícitos e de mistérios inexistentes.



Escrito por Sílvia Abrahão às 21h28
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Ator: profissão errada

                           

                                                                                                   

                                                Há atores que habitam nossa memória afetiva para sempre. Simplesmente nos apaixonamos por eles. Viramos seus fãs e os defendemos custe o que custar. Não gostamos de quem os destrata, não admitimos críticas superficiais quando o assunto gira em torno daqueles que consideramos verdadeiros deuses. De certos artistas ficamos tão íntimos que parece mesmo que os conhecemos na vida real.

                            É claro que talento é necessário para encantar, assim como uma química inexplicável que alguns têm e outros não. Mas é fato, igualmente, que nos tempos atuais alguns "atores" estão se saindo muito bem sem que tais pré-requisitos sejam aparentes. Sim, basta uma rápida olhada em novelas e seriados que infestam as emissoras para se constatar que há muita gente sem talento por aí. Mais que isso: sem vocação para a coisa.  

                            Em programas de perguntas e respostas sobre TV e cinema, jovens atores demonstram espantosa desinformação, desconhecendo novelas antigas, astros renomados de todas as épocas, produções importantes da cinematografia, ratificando a ideia de que pouco conhecem do "metier" que escolheram. Muitos caem de paraquedas no universo do entretenimento simplesmente por que são jovens e bonitos, e por isso, apenas por essa razão, acham-se no direito de postular o exercício da atuação, essa que é talvez uma das mais complexas profissões. Em consequência, a legião dos que sonham com uma chance no Olimpo das estrelas não para de crescer. Por sua vez, sobra para o espectador a tarefa de conviver cotidianamente com pessoas mal preparadas para o que fazem, incapazes de simular com decência os sentimentos das personagens que representam.

                           O que dizer de atrizes como Marylin Monroe, arrebatador símbolo sexual, que após cinquenta anos de morte sobrevive com uma imagem incansavelmente reproduzida? De Madonna a Lady Gaga, todos amam Marylin. E os "novos" talentos da modernidade, sobreviverão por quanto tempo? Qual seu real poder? O fato é que estamos começando a nos habituar a inexpressividade de uma leva de atores ruins; acostumamo-nos a eles, sem rejeitá-los ou criticá-los. E mais: nós os enriquecemos. Exemplo disso é a "atriz" Grazi Massafera, que saiu de um reality show diretamente para o horário nobre da teledramaturgia brasileira, sem tréguas desde então, ao contrário, batendo recordes de atuação em campanhas publicitárias pelo país afora. É realmente de se pensar que algumas pessoas nasceram viradas para a lua, o que nos leva a acreditar que sorte não prescinde de talento.

                           A revista "Playboy" brasileira anuncia a capa para sua edição de aniversário: Cléo Pires. Outro imbróglio artístico, mas que contou, seguramente, com a sorte de ser filha de quem é; superestimada por diretores e produtores, onipresente nas novelas globais e na tela grande dos cinemas sem que qualquer mínimo lampejo de talento a acompanhe. Com péssima dicção e interpretações fraquíssimas, a afortunada "atriz" só tem o que comemorar. Em uma época em que a habilidade interpretativa é dimensionada pelas medidas das atrizes, não seria de se espantar o fato de que a maioria nem peça teatral na escola tenha encenado.

                           A mídia se transformou em uma grande vitrine, em que qualquer um pode ser apresentador, animador, âncora, repórter (o diploma de jornalismo não é mais obrigatório, lembremos), e a nossa frente desfilam personas que mais parecem ter saído de um desfile de modas. Atrizes e modelos convivem pacificamente nos dramalhões novelescos nos quais somos viciados há décadas, e pouca discussão é gerada a respeito. Em outros tempos, os atores faziam questão de uma formação teatral sólida__ capacitavam-se em uma linha de atuação que os diferenciava de seus congêneres; hoje algumas atrizes vêm diretamente do elevador em que estavam quando foram descobertas por diretores de tevê impressionados com sua beleza "única". O próximo passo é encaminhá-las às "oficina de atores", o recanto idílico onde vão parar essas promessas a fim de se preparar para a  estreia nacional.

                          Se na modernidade todos resolveram ser atores bem-sucedidos, preparemo-nos. Talvez desligar a tevê e abrir um bom livro seja o único caminho para nossa salvação.



Escrito por Sílvia Abrahão às 19h23
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Uma lembrança eterna

                                                                                                    

                                      As lágrimas rolavam abundantes sobre a face, por vezes tão rápidas que mal dava tempo de enxugá-las. Todo tempo vinha-lhe à mente a imagem daquele rostinho lindo, delicado; as mãozinhas brancas, a boca em formato de coração que tinha cor de morango. Os olhinhos, nos últimos tempos, estavam caídos, a pele avermelhada, sempre muito febril. Ah, Deus, que não acontecesse o pior! Mariana era uma mulher forte, e do alto de seus 47 anos já havia passado por muitas dificuldades, contudo  seguia em frente, encontrando no trabalho a melhor forma de se desviar do destino inglório dos que nada têm, nada ganham, nada herdam.

                      Mãe de dois filhos, avó de uma netinha, tinha três empregos. Trabalhava como diarista três vezes por semana na casa de uma família, como faxineira em um escritório de advocacia, e como "faz-tudo" em uma pizzaria, todas as noites. Nesta ajudava a fazer molho, montar as pizzas, lavar toda a louça, arrumar a cozinha quando terminava o expediente, às 23 horas. E era então que voltava para casa, gastando uma hora dentro de um ônibus esvaziado, onde aproveitava para fechar os olhos pela primeira vez  no dia.  O trabalho para Mariana era algo natural, bem-vindo. Sua disposição era invejável, jamais reclamava de cansaço ou proclamava palavras feias ao seu ganha pão. Ao contrário, ainda fazia mágica com o tempo que lhe sobrava: aos domingos, visitava as vizinhas do bairro levando consigo catálogos que anunciavam maquiagem, lingerie, potes plásticos de cozinha. Era mais uma maneira que encontrara de ganhar algum dinheiro. Em casa, capinava o quintal, fazia bolo, lavava roupa, passava.

                     O marido ficara paraplégico após ser atingido por um tiro durante assalto ao posto em que trabalhara, há nove anos; aposentado por invalidez, ajudava Mariana como podia. Era ele quem, durante a semana, cuidava do filho caçula, de 11 anos. O menino era um exemplo, bom aluno, bem-educado, obediente, apegado à família. A casa era o orgulho de todos, comprada literalmente com o suor de uma mulher batalhadora. O imóvel era simples, com os cômodos sempre muito limpos, arrumados, organizados, com móveis adquiridos através de longuíssimas prestações, aliás como tudo na vida de Mariana__os carnês eram uma companhia eterna, e já estava mais do que habituada a ter contas a pagar.

                     Mariana sempre trabalhou, pelo menos essa era a lembrança mais distante; aos 13 anos já faxinava casas de madame na companhia da mãe. Mas ela gostava, não se via como vítima ou manifestava ímpetos de rebeldia; apreciava o trabalho físico, era hiperativa, gostava de executar, agir, talvez por isso nunca tenha se mostrado atraída pela escola, tendo abandonado logo cedo os estudos. Hoje fazia a maior questão que o filho fosse estudioso e cobria-o de mimos quando o assunto eram as notas altas que tirava; tinha planos de matriculá-lo em uma instituição melhor, talvez particular, quando entrasse para o ensino médio, e já se imaginava fazendo contas para atingir seu propósito. Quando a filha mais velha passou a namorar sério, começou a juntar dinheiro para uma boa festa de casamento; fez ela mesma todos os salgados, docinhos, o bolo de três andares. Ela comprou o vestido da filha, ajudou na decoração do salão da igreja, pagou convites.

                    O nascimento da neta precedeu uma série de novos gastos. De novo Mariana tomou a dianteira para ajudar a filha e o genro, que também viviam modestamente. Foi ela quem providenciou o berço da menina, preparou o enxoval completo e comprou-lhe uma caixinha de música, daquelas em que a bailarina rodopia lindamente, tal qual havia visto, quando adolescente, em uma das casas em que trabalhara, e jamais esquecido. Lembrava-se da melodia que era tocada todas as vezes que o tampo se abria, e da dançarina que se empertigava com os braços para o alto. Talvez fosse esse o objeto que mais invejara na vida, prometendo para si mesma que algum dia compraria uma caixinha de música extamamente igual. O fato é que os anos se passaram e o desejo pelo objeto foi esquecido, até se deparar com uma vitrine de loja em que um desses porta-joias aparecia como estrela principal. Não teve dúvidas. Lembrou-se da neta imediatamente e pensou que esse seria para ela seu presente mais encantador.

                   A chegada da criança trouxe mais emoção a sua vida, era perdidamente apaixonada pela neta; sentia uma necessidade visceral de vê-la, tocá-la, escutar seus balbucios, cuidar dela. Os finais de semana ficaram agitados, a casa mais alegre. As segundas-feiras, das quais Mariana tanto gostava, transformaram-se desde a chegada da bebê, pois agora sentia grande pesar em se separar da neta e uma saudade incrível durante todo o dia. Guardava a foto da pequena em sua carteira e não havia quem não a tivesse visto, gostava de mostrá-la como a um troféu, quando ao mesmo tempo aproveitava para apreciar mais um pouco aquele rostinho lindo, com os dentinhos à mostra. A menina de fato parecia um anjo, com os olhos azuis vívidos, a pele muito branca, o cabelinho castanho-claro, em cachos que lhe tocavam a nuca.

                  Por um instante Mariana parou o que fazia, encostando o balde e o rodo à parede. Colocou as mãos sobre o rosto, fechou os olhos. Sentiu um arrepio percorrê-la, uma sensação estranha. O celular que estava no bolso do avental começou a tocar, e o apanhou num movimento rápido. A voz da filha chorosa ecoava em seus ouvidos. Levou a mão ao peito, num gesto instintivo, como a tentar diminuir os batimentos de seu coração. Meningite. A menina já estava internada, e o médico havia dito que era grave. Desligou o telefone com a impressão de estar dentro de um filme, talvez vivendo outra vida. De novo a mesma sensação estranha de antes. Guardou vassoura, rodo, os produtos de limpeza espalhados pela casa. Comunicou à patroa que precisava ir ao hospital ver a neta, mas não foi preciso dizer muito, pois seus olhos vermelhos, com lágrimas grossas a escorrer por uma face pálida, as mãos muito trêmulas, traduziam seu estado de desespero. Colocou o pano de chão dentro de um balde, de molho no sabão. Trocou de roupa, apanhou a bolsa e saiu.

                 O dia estava quente naquela manhã. Ainda era cedo, mas o sol se fazia impiedoso. No ponto de ônibus escutava as vozes das pessoas reclamando do calor, mas parecia que estavam longe, pois o som se transformara em murmúrios. Também não sentia qualquer quentura, ao contrário, de quando em quando puxava a gola do vestido, como a protegê-la de um frio que só ela percebia. Os ônibus paravam e seguiam; pessoas entravam, outras desciam. Incrivelmente, não tinha pressa. Era como se não quisesse sair dali. Tinha os pés grudados na calçada, não se mexia. Quando avistou o número do transporte que seria o seu, continuou imóvel. Estava acometida de uma paralisia, um medo que lhe tomava as forças e a deixava incapaz de se mover. O máximo que conseguiu foi sentar-se no banco de alvenaria da parada. De novo as lágrimas brotaram. Não saberia dizer quanto tempo havia ficado naquele estado, o fato é que a manhã se foi, e então veio a tarde... e a noite. O celular tocou dezenas de vezes, e ela nunca o atendeu. Quando finalmente conseguiu sair do torpor em que se metera, pegou o ônibus para casa. Sabia muito bem, em seu íntimo, o que esperar. Simplesmente sentia.

                 A princípio não quis participar dos rituais funerários, mas precisava amparar a filha, tão triste e debilitada. Guardaria a imagem daquele caixãozinho branco para o resto da vida. Os dias subsequentes foram muito duros. As roupinhas, o berço, os brinquedos, tudo lhes lembrava aquele anjo de passagem tão rápida por suas vidas. Os patrões foram condescententes com Mariana e a ajudaram de uma forma qualquer, mas agora precisava voltar a seus empregos. Na manhã de retorno ao batente, a caminho da parada de ônibus, Mariana apanhou uma foto de sua pequena princesa, uma em que ela olhava fixamente para a bailarina da caixinha de música; aquele bebê lindo que fora seu bem mais precioso agora não estava mais ali, e pela primeira vez em toda sua existência se sentiu injustiçada. Teve raiva da vida.

                Uma garoa fina começou a cair, e retirou rapidamente a sombrinha da bolsa. Com passos velozes seguiu em frente, pois havia muito trabalho a fazer.



Escrito por Sílvia Abrahão às 13h19
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Fora da Ordem Mundial

                                                                                         

                               O desemprego mundial constata que os sistemas de governo, sejam socialistas, capitalistas, apresentam arestas profundas no que concerne a um modelo decente de estabilidade social que possa propiciar as suas populações uma vida relativamente satisfatória. Mesmo as grandes nações líderes econômicas, como Estados Unidos, China e Japão, demonstram um quadro desolador no que concerne ao mercado de trabalho. Os ataques de xenofobia observados no continente europeu, o endurecimento das leis contra imigrantes ilegais em vários países e até mesmo a dificuldade para a concessão de vistos a estrangeiros atestam o quanto há de preocupação com uma possível reserva da atividade trabalhista para os nativos.

                       Tal realidade ratifica o quadro de opressão em que muitos vivem. Simplesmente não há emprego para todos. Aqueles que não se capacitarem, especializando-se em uma atividade qualquer que possa lhes abrir as portas da rentabilidade desejada, terão ainda mais problemas. O mundo atual não perdoa os fracos, os indolentes, os incompetentes; ao mesmo tempo a sociedade de consumo atira à cara de todos que ser feliz é possuir coisas. Começa aí um novo dilema: para comprar é preciso dinheiro, e para ganhá-lo é preciso trabalho. Trata-se de uma equação antiga que atinge agora nuanças de patologia, uma vez que nunca houve uma produção de bens tão extarordinária quanto a observada na modernidade, pregando o ideal do consumo custe o que custar. Até mesmo nações pós-comunistas, como a Rússia, rendem-se ao nababesco universo das compras, produzindo uma nova modalidade social, a dos emergentes loucos pelas grifes ocidentais.

                       Se o mundo lança recados, é preciso saber interpretá-los. Os mais jovens, principalmente, precisam entender o quanto antes as novas leis apregoadas por um mercado pouco condescendente com quem quer que seja. Diante de um universo abarrotado de informação e possibilidades para o estudo e a aprendizagem, aqueles que não se atirarem com disposição ao exercício do saber ficarão inevitavelmente para trás. Serão eternos servos do sistema, desempenhando ocupações de menos valia na sociedade, recebendo salários baixos, em permanente frustração diante de sonhos longínquos de sua realidade financeira. É preciso lembrar que muitas empresas têm vagas para ocupação imediata em cargos que exigem funcionários capacitados para determinadas funções, mas nem sempre há essas pessoas para ocupá-los, posto não serem especializadas.

                       É fato que apesar do desenvolvimento observado nos últimos séculos, a explosão tecnológica que norteia as relações interpessoais, o extermínio de fronteiras, aproximando culturas e reduzindo o mundo a uma aldeia onde cada vez mais se nota um "modus vivendi" com ideologias semelhantes, ainda convivemos com disparidades sociais assustadoras, que subvertem a lógica do progresso e tornam paradoxal a existência no planeta.  Sim, como entender ser possível tanta informação científica, com possibilidades outrora inimagináveis, aliada ao gerenciamento da informática que impõe um novo ritmo de trabalho a todos, ao mesmo tempo que ainda convivemos com situações de risco, com populações que morrem em condições subumanas? A falta de alimento, água, remédios e mínima infraestrutura em países da África; o suicídio de jovens chineses que não se adequam às extenuantes horas de trabalho nas indústrias eletrônicas, que lhes roubam o lazer, a saúde, a dignidade; a esmola governamental que se traveste de ação afirmativa, em políticas sociais assistencialistas, incapazes de erradicar a pobreza em nações como o Brasil são apenas alguns pífios exemplos do desequilíbrio mundial em que nos encontramos.

                       É irônico constatar que os desafetos provocados pelas falhas governamentais, em diferentes países, de diferentes continentes, aproximam os homens. A miséria costuma ser parecida em qualquer lugar, assim como a riqueza é o mesmo ideal de milhões, o sonho da redenção; o ato de vingança contra uma sociedade que nos extingue as forças, rouba-nos a energia quando nos lança à busca da sobrevivência, mesmo que isso signifique apenas respirar para parecer vivo. Há muito de errado no mundo em que vivemos; teóricos e estudiosos políticos já preconizaram as desgraças que alcançariam o atual milênio caso a desigualdade de renda se perpetuasse, e agora apenas colhemos a safra que plantamos.



Escrito por Sílvia Abrahão às 20h23
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Uma rua chamada lar

                                                                                                                                

                                                                                               

                                      João era morador de rua. Como centenas ou milhares de outros moradores de rua. Ou seja, passava o dia perambulando pelos recantos da cidade em busca de sobrevivência, o que significava conseguir comida, uns trocados, lugar para tomar banho e, claro, à chegada da noite, um canto para dormir.

                          Ironicamente, havia se acostumado a essa vida, e entendia a cidade por um ótica completamente diferente daqueles que se trancavam em casa, após um dia de trabalho, em reconfortante recolhimento. Essas pessoas pagam impostos, saem para passear, têm dinheiro para bancar seus desejos; mas ele tinha a cidade como lar... as ruas, parques, avenidas, marquises eram os cômodos de sua morada, e ele o rei dessa fortaleza.

                          Apesar dos dissabores de um cotidiano marcado pelo peso do desconforto, da insegurança, das adversidades comuns a esse tipo de existência, João era estranhamente feliz. Não se tratava, ademais, de um homem com atraso mental, portador de qualquer deficiência física. Era alguém que gozava plenamente de saúde, capaz de fazer alguns bicos aqui e ali. Às vezes, quando parava para pensar no passado, perdia-se em reminiscências do tempo em que era "normal", o que significava dizer ter uma casa e família. João era o irmão mais velho de uma trupe de oito; sua mãe morreu no parto do último rebento, sobrando para o pai a tarefa de sustentar a todos sem muita ajuda. Não havia avós nem tias ou primos; formavam uma dessas famílias desgarradas, morando numa periferia fétida, com problemas demais e conforto de menos. O pai bebia muito e sumia frequentemente; às crianças cabia cuidar umas das outras, desde cedo entendendo que deveriam se virar da forma que desse. Na miséria, as leis feitas por homens são outras, bem distantes dos padrões sedimentados pela sociedade emergente.

                          Na infância, frequentara a escola. Gostava de matemática, e também da professora e da merenda. Estudara em uma dessas porcarias mal ajambradas que as prefeituras constroem para justificar a verba gasta em "educação". Carteiras, salas, material escolar todos tão precários que seria natural desacreditar em qualquer um sair dali alfabetizado; mas o fato é que aprendiam a ler e escrever, fazer as quatro operações, mesmo que isso durasse muito tempo; a desistência dos alunos era algo perfeitamente aceitável e... presumível. As crianças gostavam da rua, de pedir esmolas pelos semáforos, da liberdade que a cidade lhes proporcionava, e as mães não ficavam zangadas quando os filhos apareciam com uns trocados a mais para ajudá-las. E João aprendeu rapidamente essa linguagem: sobrevivência. Afinal, não havia de fato com quem pudesse contar; ninguém lhe havia contado histórias de príncipes e princesas em castelos encantados, e muito menos lhe ensinado a rezar, fazendo-lhe crer que um anjo da guarda o acompanharia para sempre.

                          Basicamente, desenvolvia duas atividades à época: limpava vidros de automóveis à parada no farol de trânsito e pedia trocados pela rua. Às vezes, cansado, acabava dormindo com outros garotos em pequenos esconderijos urbanos, e não voltava para casa. No dia seguinte, quando aparecia, não havia qualquer questionamento, nenhuma cobrança. Na paupérrima casa de dois cômodos, os outros agiam da mesma forma; e assim o que seria algo reprovável para uma criança, transformava-se em normalidade, um caminho aceitável de se seguir.

                          É bem verdade que desde cedo cigarro, bebidas e drogas apareceram; as crianças atuavam em conformidade ao universo dos adultos, pois para os pequenos moradores de rua, infância é uma palavra inexistente no vocabulário. Não existem brinquedos, nem atenções especiais. Os meninos são tratados com uma linguagem rude, inquiridos como homens feitos, mesmo que a estatura do ser que se observa à frente seja diminuta. O fato é que essas crianças vão adquirindo um vocabulário duro, recheado de expressões chulas, com vícios de retórica próprios desse universo pouco condescentende com quem quer que seja; o olhar endurece, o corpo traduz a expertise dos que correm muito, dos que se enfiam em qualquer buraco com notável maleabilidade. Nos olhos, não há inocência. A vida lhes rouba sem aviso prévio qualquer lampejo pueril, atirando-lhes ao tormento das necessidades, em que se acordar vivo é a lição aprendida.

                          João sempre gostara das ruas, da imensa liberdade que lhe concebia conhecer inúmeros recantos. Como todos os demais, aprendeu algumas manhas para livrá-lo de possíveis confrontos com pessoas, policiais, comerciantes. Sabia seu lugar, e não forçava a barra. Se era bem-vindo, aproveitava, do contrário, sumia dali. Tinha os seus lugares preferidos para pedir comida, catar papelão. Conseguia algum dinheiro nessas empresas de reciclagem. Tomava banho em fontes, bicas de cemitério, em banheiros comerciais; guardava seus poucos pertences em um vão de viaduto, junto com outros companheiros. Tinha cobertor, escova de dentes, sabonete, espelho, aparelho de barbear, muda de roupa. Às vezes, em noites muito frias, dormia em albergue público, almoçava em restaurantes populares, que cobram apenas um real por uma refeição completa.

                         Da famíla, nunca mais soube. Todos se perderam por aí. Tentou trabalhar formalmente, mas as portas não costumam se abrir para pessoas sem documento, sem residência, sem comprovação de vida. Era como se não existisse... se morresse, sabia bem, seria levado para esses lugares em que ficam os indigentes. Mas pouco pensava sobre isso, pois não possuía a sensibilidade dos sentimentais, também não se perdia no discurso da autocomiseração; jamais se colocava no papel do coitado, ao contrário, enxergava a vida com a rudeza que lhe fora ensinada, e esse olhar rústico lhe ajudava a não perder tempo com bobagens existenciais.

                        Os dias se passavam na rua ao sabor das novidades que moviam o calendário e suas idiossincrasias. Natal e Ano Novo tinham as calçadas cheias, ruas e avenidas enfeitadas, com mais piedade no olhar alheio, pessoas mais fraternas, esmolas melhores. O carnaval deixava parte da cidade vazia, com todos viajando para as praias, e outra parte animada, com muita bebida rolando e pessoas enlouquecidas. E havia a Páscoa, o São João, as férias escolares. O inverno trazia campanhas de solidariedade, distribuição de agasalhos e cobertores, os "sopões" à noite. E também existiam os cultos ao ar livre, os show gratuitos, os eventos públicos. E lá estava ele. João vivia as ruas com a dinâmica de suas possibilidades, e como qualquer pessoa, vibrava com as surpresas que os dias podem nos revelar.

                            Aos que não conseguem imaginar civilidade no duro exercício de se viver como morador das ruas de uma grande cidade, João seria o mais perfeito exemplo a ilustrar tal realidade. Dia após dia, esse é seu papel. Para alguns, uma existência execrável, indigna e tormentosa; para ele, apenas sua vida, com as dificuldades e os sonhos que lhe pertencem, como igualmente ocorre com todos. Um homem moldado pelo cimento do asfalto, pelos caminhos que o levam a tudo e a nada; que se alimenta dos cheiros, dos sons e das imagens de uma metrópole que nunca para, servindo-lhe de quintal, sala, quarto. O único lar que conhece.



Escrito por Sílvia Abrahão às 14h57
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Pressa de quê?

                                                                                             

                          O semáforo fica verde, e apenas um segundo se passa para o carro atrás buzinar estridentemente, reclamando passagem. Na fila de um supermercado, uma mulher impaciente abandona três itens de compra sobre o balcão, aos resmungos, sem esperar a vez para ser atendida. À porta das escolas, pais estacionam perigosamente, tumultuando o trânsito, para servir de motoristas aos seus rebentos exigentes, que não admitem andar alguns metros rumo ao carro estacionado em lugar seguro e legalizado. Dentro dos aviões, após aviso de pouso, pessoas desafivelam cintos e levantam-se à espera da abertura das portas como se uma guerra houvesse sido anunciada.

                         Observamos que a sociedade contemporânea tem pressa. Muita pressa. Há uma nova ordem mundial que apregoa leis de conduta enaltecendo a velha máxima "tempo é dinheiro", superestimando o espírito de competição e nos atirando todos ao mesmo poço dos desafios diários da sobrevivência em prol do acúmulo de minutos preciosos, os quais por vezes desperdiçamos ingloriamente. Não deixa de ser um paradoxo lutarmos tanto por qualidade de vida, projetando a felicidade para um futuro idílico, quando na verdade a vida só existe no âmbito deste segundo, das atividades realizadas no presente. Não seremos mais felizes no momento seguinte a esse do que somos agora.

                         Em vários países, a necessidade de desacelarer levou à criação do movimento "Slow life" (literalmente "vida lenta"), o qual pespega uma existência que diminua o estresse causado pelas ações rápidas em um cotidiano massacrado por normas sociais que enaltecem a velocidade acima de tudo. Por tabela, surgem os adeptos do "slow food", contra a comida servida velozmente, ritual este impingido pelas redes de "fast food" e a produção insustentável de alimentos. O que se tem contra isso, afinal, é uma resposta consciente ao alardeado modo de vida ocidental que retrata o ser humano como presa de um sistema imperdoável, o qual não desculpa ações irrealizadas ou que fujam ao padrão ditado pelas leis da selva capitalista. O objetivo de tais movimentos é, acima de tudo, livrar o homem da ansiedade, em uma tentativa de recuperar sua conectividade com a cidade em que mora, a natureza e as práticas de convivência mais humanizadas.

                         Mas afinal, para que tanta pressa? Ademais, o que fazemos com o tempo que economizamos? Andamos, comemos e falamos rapidamente, sem paciência para delongas, para aqueles que não sabem a que vieram. Consumimos as novas modalidades eletrônicas com medo de nos desatualizarmos; os objetos "high tech" comprovam nossa competência e senso de estilo, os quais corresponderão ao nosso status social, e por tabela ao nosso nível de aceitação. Da mesma forma fazemos cursos, cumprimos metas, adequamo-nos por temor de sermos substituídos por outro mais propício, mais adequado às posturas "avant garde" ditadas pelo mercado. Não temos mais tempo para os amigos, para as atividades lúdicas, nem para nós mesmos. Ficar sem fazer nada, por sua vez, é sinônimo de crime; o doce exercício da indolência, já apregoado como pecado capital, virou agora símbolo de total insanidade, algo inaceitável para os padrões velozes do mundo contemporâneo.

                         Para os que demostram anseio de um cotidiano mais módico, contemplativo, repensar o individualismo em voga, e a atual filosofia reinante de "modus vivendi", faz-se necessário ; talvez não seja preciso aderir a movimento algum, apenas buscar o equilíbrio entre uma ação rápida, por vezes inevitável, e os momentos livres em que é possível se ficar em  ritmo de "dolce far niente", sem culpas, sem o fantasma da angustiante sensação de perda que parece infestar algumas pessoas nessas ocasiões.

                         Viver é mais do que correr ensandecidamente de um lado para outro atrás de executar tarefas que prescindem do tempo como elemento essencial; viver deve ser um ato de conquista diário, aberto às surpresas que se escondem no prazer de se observar sem pressa uma paisagem, de se escutar uma música com atenção no rádio do carro, de sair para almoçar com um amigo querido, sem interrupções ou celulares histriônicos sobre a mesa, de se encontrar alguém do passado, na fila do supermercado, e presentear-lhe com a atenção merecida. Não somos peças de engrenagem de um maquinário__somos, sim, seres humanos carentes de novos símbolos existenciais. Do contrário, as síndromes sociais que se avistam sairão vencedoras de mais um "round" desse jogo chamado vida.

                       



Escrito por Sílvia Abrahão às 13h52
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Extra: a mais nova tragédia

                         

                                                                                                

                        Mulher é assassinada e corpo abandonado em canal do Leblon. Família é morta na Holanda. Estudante é estrangulada e corpo jogado em estrada. Bebê é sequestrado. Dinheiro é desviado da conta de milhares de correntistas. Asilo pega fogo e velhinhos morrem carbonizados. As más notícias invadem os programas de TV , jornais impressos e eletrônicos todos os dias, com tal empenho em se fazer grotescamente presentes que estamos por nos habituar ao lado negro da existência, por vezes acreditando que isso seja natural, talvez mesmo mais previsível que seu oposto; a alegria, por sua vez,  torna-se um mero detalhe, um insigne personagem a nos visitar de quando em quando, tal qual um parente querido que mora em um recôndito distante.

                         Muitos jornais televisivos, depois de nos brindar com uma quantidade exorbitante de desafetos, notícias de naipes os mais terríveis, gostam de fechar seus quadros com algum acontecimento idílico, como a tentar suavizar o peso das desgraças anunciadas. Tarde demais, pois nossa mente já terá processado os fatos anteriores, nosso espírito se contaminado pelo medo renitente dos crimes alardeados; nossa antena anterior, a partir de agora, mostrar-se-á alerta e desconfiada de tudo e todos, salvando-nos das armadilhas sociais que nos tentam extorquir dinheiro, inocência, dignidade. E pouco adianta encerrar os grandes noticiários com lindas imagens de uma flor que desabrocha em comemoração à primavera; o cachorro curado de alguma moléstia a pular no colo do dono risonho; e muito menos, por favor, a criança recém-nascida como símbolo de esperança. Não, não surtirá o efeito esperado.

                         Apesar dos manuais de autoajuda apregoarem a necessidade de se pensar positivamente, e daí o sucesso do livro clichê "O Segredo", nosso cotidiano, ao contrário, instiga-nos ao pessimismo. Sim, pois não há como ser alegre em meio a tanta tragédia; muitas vezes, sentimo-nos culpados por estar bem, sem traumas, com dinheiro, tempo livre e outras possibilidades que nos atiram à face o fato de sermos "diferentes". Hoje todos têm problemas, buscam terapias, reclamam de moléstias as mais variadas, possuem síndromes de toda sorte, com nomes impronunciáveis. A sociedade ruma ao caminho oposto do prazer, mesmo se pagando cada vez mais caro para obtê-lo.

                        O mundo globalizado, dentro do sistema capitalista, transforma-nos todos em meros fantoches em busca do ideal de felicidade sedimentado por uma indústria que nos deseja, contraditoriamente, infelizes, a nos fazer percorrer incansavelmente a estrada da redenção, ansiosos que estaremos pela alegria apregoada pela mídia__ fantasiosa, portanto nunca encontrada. Gastamos nossas forças eternamente na esperança de "um amanhã melhor", quando enfim poderemos reconhecer o supremo ícone do bem-estar; amanhã esse cada vez mais longínquo, semelhante as películas de ficção científica, onde a terra prometida encontra-se em outra esfera, outro planeta, outra galáxia. Enquanto estivermos carentes, sorumbáticos, abatidos pelas más notícias transmitidas por uma mídia talentosa na divulgação de fatos nefastos, recorremos aos produtos da mágica indústria farmacêutica a nos redimir das dores e do sofrimento; consumimos cada vez mais remédios, buscamos cada vez mais elixires. Igualmente comemora o mercado produtor dos bens que nos farão "melhores" por alguns minutos, propiciando-nos uma explosão de serotonina da qual rapidamente sentiremos saudade instantes depois: aí entra a compra de bolsas, sapatos, celulares, objetos de todos os matizes. Consumimos para "esquecer" o quanto a vida é dura, e afinal merecemos ser felizes.

                        É inegável os traumas sociais observados no atual milênio, assim como a constatação das disparidades que atravancam a existência de milhões de pessoas, em todos os continentes. Habitamos um mundo desigual, em que a abertura das fronteiras propiciada pela tecnologia e pela facilitação do convívio entre os povos apenas nos fez enxergar que estamos todos muito parecidos nas nossas carências e frustrações, vivenciando igualmente o desejo de felicidade. Faz-se necessário, contudo, entender que ao passo que os símbolos de mais valia, conforto e dignidade nos são oportunamente apresentados, do outro lado há um sistema maniqueísta a nos roubar tais possibilidades, exigindo-nos o pagamento de uma quantia acintosa, da qual não poderemos prescindir. As notícias ruins estarão a infestar os meios de comunicação todos os dias; cabe-nos permitir ou não que estes tenham livre entrada em nossos lares, consumindo-nos como única opção de informação. Há um vasto universo de fontes jornalísticas, íntegras, as quais podem nos tornar mais humanos, mais nobres, menos amedrontados e mais alegres. Basta que nos prontifiquemos a encontrá-lo.



Escrito por Sílvia Abrahão às 19h47
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Fogueira das vaidades

                                                                                                   

 

                                  Quanto custa ser belo? Muitos afirmam que, na modernidade, apenas aqueles que não têm condições financeiras amargam a derrota de uma aparência fora dos padrões estéticos vigentes. Talvez haja realmente alguma verdade embutida aí, uma vez que as inovações da ciência no que concerne aos métodos que levam a um ideal belo e rejuvenecido não estão ao dispor dos menos endinheirados. Se a beleza "au naturel" apresenta prazo de validade num mundo em que as leis de mais valia apontam para a busca da juventude eterna, o que se avista para um futuro não tão longínquo são homens e mulheres em constante mutação, à procura do mágico elixir da boa aparência, concebido pelos cientistas da vaidade.

                    A concepção de um corpo esculpido pelos padrões que ditam o perfil do que deve ser considerado belo tem levado muitos a uma busca ensandecida pelas diretrizes que regem esse intento, e aí observa-se a grande festa de possibilidades a garantir a satisfação do cliente __ de cirurgias as mais sofisticadas, liftings, botox, ácidos retinoicos, poli-lático, a toda sorte de próteses de silicone e inovações anunciadas pela dermatologia em âmbito mundial. Programas de tevê banalizam os procedimentos da cirurgia estética, levando milhões a acreditar que todo o ritual de transformação é rápido, prático e sem dor, talvez mais simples do que ir ao cabelereiro, ou se passar em uma clínica para uma sessão habitual de drenagem linfática.

                    Mas a verdade embutida nessa nefasta realidade que se avista, cada vez mais impositiva de valores estetas e menos condescendentes com aqueles que ousam repudiá-los, é que o ser humano talvez nunca tenha se mostrado tão perdido diante de um universo que o obriga a ser bem-sucedido em todos os sentidos, em todos os campos de atuação, e ainda mais que isso: admirado, invejado, reverenciado. A obsessão vigente pela perfeição transita por caminhos dúbios, que vão além do ideal de aceitação; é preciso maior determinação, pois para  muitos cravar seu nome na sociedade é o grande intento, custe o que custar__ o que significa se submeter a toda sorte de artimanhas que poderão esculpir, finalmente, a imagem desejada, com a qual se sentirão seguros o suficiente para então viver com o que acreditam ser dignidade e prazer. É nítido, observa-se com certa facilidade, que a duração desse tão sonhado emblema de satisfação, entretanto, pouco dura, posto ser calcado em notórias superficialidades, as quais alimentam apenas a vaidade física, esquecendo-se da esfera do espírito, tão carente de igual dedicação. O que há de ser cultivado, a partir daí, serão novas e frequentes buscas pela satisfação intermitente, numa angústia eterna, em que o ideal alcançado sempre desaparecerá ao menor sinal de novas cobranças, da necessidade de outras transformações para atender aos apelos do padrão em evidência.

                    Ivo Pitangui, o mais celebrado e respeitado cirurgião plástico brasileiro no mundo, aos 84 anos, afirma que "o que há de mais lindo num ser humano é sua mente, seu espírito, o qual não envelhece nunca. A imagem é uma parte da vida, e não é a mais importante". Seria bom que tão nobres palavras fizessem eco numa sociedade que prioriza a matéria como cerne essencial  da suprema existência, não oferecendo tréguas quando esta demonstra os sinais inerentes da maturidade, anunciado que sim, o corpo definha e morre. Não somos educados ou preparados para conviver com tal inexorável realidade, repudiando como se a uma doença infecciosa o envelhecimento. É claro que os cuidados com a saúde e a dedicação a um corpo que pode, e deve, ser atraente, não se questiona; trata-se de um ideal buscado pela humanidade há milênios, quando os recursos rústicos para o embelezamento já existiam, e o ser fazia deles usufruto coerente a seus anseios de sedução e autoafirmação.

                    Não deixa de ser angustiante se observar o quanto homens e mulheres perdem o controle em busca do aprimoramento estético, em permanentes procedimentos cirúrgicos, ou fazendo jus a outros meios, para então desfilarem com rostos que em nada lembram suas feições originais, perdendo traços e linhas que os diferenciavam, que os personalizavam, que os definiam.  É igualmente triste o universo de mulheres, especialmente, que se recusam a dizer a idade real, num ato de constrangimento estúpido, como a se sentirem culpadas por terem amadurecido, como se o ato de envelhecer pudesse ser entendido como um pecado social. Não é nada fácil, sem dúvida, despedir-se continuamente de uma juventude tão reverenciada pela indústria mundial, a qual faz crer que apenas os mais novos são capazes de sentir prazer, alegrar-se; serem bonitos e desejáveis. Permanentemente, o que se tem é uma batalha travada em que ao final só existirão perdedores, de todos os naipes: os mais jovens na excludente busca pela aceitação, atrás dos signos ditados pelos recursos midiáticos, principalmente, e os mais velhos tendo que provar que ainda são dignos de admiração, perdidos em constantes simulacros de vivacidade.

                    Se há dor a infestar a existência humana, na ânsia desenfreada pela perfeição da matéria, é por que estamos menosprezando a mais coerente das leis do bem-viver: ao passo que o corpo definha, com o esmorecimento dos órgãos, com a flacidez dos músculos, com a diminuição das capacidades sensoriais, o espírito se edifica, alicerçado nas experiências acumuladas que se traduzem em uma nova postura diante da vida, quando finalmente cessam as vaidades infundadas, as intolerâncias, os temores de rejeição, e se comemora a autoaceitação, a segurança e possibilidade de ser feliz sem ter que provar qualquer coisa a qualquer um. Aos que não aprenderem a lição, resta apenas a insatisfação eterna, um exercício contínuo e cansativo em prol de uma imagem que há muito terá se perdido no compasso natural das horas que passam, as quais não constumam ser piedosas, ao contrário, cada vez mais rápidas e menos complacentes.



Escrito por Sílvia Abrahão às 19h23
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Cardápio do dia: homens e mulheres

                                                                                         

                          Em entrevista à tevê, um jovem empresário relata viver muito bem no que concerne às suas escolhas afetivas. Possui, por assim dizer, uma carta bastante nutrida no que tange ao sexo feminino, com direito a opções as mais diversas. Quando está em dias românticos, liga para uma "amiga" das mais singelas, do tipo sensível; em noites intelectuais, procura por outra, mais esperta, inteligente, afeita a papos cabeça, e ainda há a boa de cama, a "cachorra" (ipsis verbis), a liberal, a entusiasmada. Enfim, a lista é interminável em vista do atual universo de possibilidades existentes, comprovando que vivemos num verdadeiro shopping, onde quem manda é o cliente, e o produto, o próprio ser humano.

                   A partir do instante em que a mulher encontrou o caminho da libertação, o qual a representa no século 21, o que se avista é, peremptoriamente, um painel de diversos papéis representados no cotidiano de muitas fêmeas ansiosas por abraçar o exercício dos afetos. Por vezes, o que se encontra é um desempenho aquém do talento exigido; em outras situações, espetacular mérito. Entendamos: não são poucas aquelas que, na ansia de se inserir no universo amoroso, acabam por maquiar suas reais intenções para se adequar ao cardápio das horas, sofrendo diante do panorama anunciado das relações efêmeras, dos relacionamentos livres, do grito vigente de que ninguém é de ninguém. A popular expressão "a fila anda", ícone de uma modernidade que não aceita a solidão ou o sofrimento de uma relação desfeita, apenas atesta isso. Por outro lado, há de se comemorar o fato de a mulher ser agente de seus próprios anseios, recebendo carta branca para agir em conformidade a suas conquistas, sem que reprimendas a infernizem e amputem suas vontades.

                   Se ao homem é permitida a livre escolha de suas parceiras, imbuído este de um "estado de espírito" que o faça desejar um perfil específico para suas aventuras amorosas, à mulher cabe o percurso da mesma trilha, contanto que não falseie sua personalidade nem violente seus instintos para corroborar o estigma da libertária, daquela que topa tudo, sem possuir de fato estofo para se adequar a tal desempenho. Ou se é aquilo que se anuncia, ou se pagará o preço, sempre alto e torturante, de uma simulação fadada ao fracasso. Ademais, renegar aquilo que somos é o primeiro passo para o renitente sofrimento que teima afligir os menos fortes ou os dissimulados.

                 Não são poucas as jovens que se insurgem contra suas famílias, abandonando estudo e um futuro de possibilidades mais interessantes, para se aventurar em relacionamentos precoces, engravidando como forma de garantir a continuidade para uma existência que consideram, não poucas vezes, indigna. É o mal a afetar grande parcela de meninas de camadas economicamente desfavorecidas, que têm nesse ideal um sustentáculo de vida, acreditando com isso poderem ser mais respeitadas ou, ao menos, menos invisíveis numa sociedade de valores deturpados. Costumam aceitar as diretrizes impostas por seus machos, felizes pela condição recém-adquirida de detentoras de visibilidade, principalmente quando saem de suas casas. O tempo que dura tal realidade? Muito pouco, o suficiente para seus parceiros as abandonarem em busca de novas perspectivas, seja lá o que isso signifique, especialmente no âmbito amoroso e sexual. Sobra para essas mulheres a frustração oriunda de uma vivência com novas responsabilidades, mas agora sem a partilha de um companheiro, o qual nunca teve a real intenção de alavancar um relacionamento calcado na solidez.

                 Se o modelo afetivo contemporâneo, cujos matizes podem ser avistados todos os dias em uma mídia ávida por mostrar "novos" pares, encarrega-se de nos fazer crer que é minimamente normal laços amorosos serem desfeitos ao menor sinal de divergência, de incompatibilidade, então faz-se necessário atenção redobrada. Não é possível se viver prazerosamente em meio a um universo de ligações efêmeras que traduzem homens e mulheres como bens de consumo, objetos de fácil substituição. Não é essa, bem sabemos, a real essência do ser humano, senão pouco estranharíamos as neuroses anunciadas, ou nos adaptaríamos às faces soturnas desse fenômeno. O temor que alguns sentem para iniciar uma relação amorosa atesta que há algo de tormentoso infestando mentes e corpos, pois se para muitos existe o medo de amar, é por que há torpes fundamentações preconcebidas acerca desse sentimento, o qual prescinde, ao contrário, de mais entusiasmo e esperança.

                 Apaixonamo-nos, homens e mulheres, ao sermos tocados pelo misterioso dedo do destino a nos ligar a alguém por identidade ou até por falta dela, posto ser inexplicável a química que liga os enamorados. Há, assim, uma verdade embutida nesse fenômeno, incontestável: nem sempre escolhemos. Às vezes, ao contrário, seria até reconfortante decidir quem iríamos amar. É fato, contudo, que quando amamos somos capazes de respeitar e admirar alguém com virtudes e defeitos, sem lhe impingir mudanças dignas de um "fotoshop" profissional; ao amar, não desejamos nos aventurar com uma pessoa diferente na segunda, outra na quinta e uma terceira no sábado, pelo simples fato de que não necessitamos de uma variedade nefasta a nos livrar de nosso tédio inconteste frente ao semelhante, à procura de um ideal jamais encontrado, uma vez ser inexistente. O verdadeiro cardápio que se avista na modernidade nada mais reflete do que a busca por um alimento que não encontramos dentro de nós mesmos, confortavelmente culpando o outro pelos erros que teimamos em praticar.



Escrito por Sílvia Abrahão às 18h15
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Em terapia

                                                                                             

 

                                Durante duas horas inteiras ficou pensando no que tinha para fazer, sem perceber que o tempo havia passado. Imóvel, olhando para o teto, perdeu-se num emaranhado de reminiscências que mesclavam cenas do passado e do presente. Ao sair do surto, entendeu que talvez precisasse de ajuda. Será que estava ficando louca? Essa não era a primeira vez que se perdia em divagações, praticamente se desligando da vida na Terra.

                       Era uma mulher inteligente, lúcida ao ponto de autoanalisar-se com uma desenvoltura bastante convincente; era realista, esperta, antenada, talvez por conta das inúmeras leituras que adorava empreender. Gostava de psicologia, filosofia, de arte em geral. Mas agora, confessava intimamente, parecia estar perdendo o controle sobre si, o que muito a preocupava, pois era uma dessas pessoas que faziam questão de  estar atentas a tudo e a todos, perfeccionista e __até então__equilibrada.

                      Não desejava pensar mais a respeito, simplesmente agiria. Fez pesquisa, deu uns telefonemas, escutou opiniões e se resolveu por um nome na área psicanalítica repleto de boas indicações. Ligou para o consultório, marcou consulta.

                     Chegado o dia, ficou impaciente. Não é nada fácil se abrir para estranhos, e o pior, não saber direito o que dizer, do que reclamar; sua vida parecia, aparentemente, em conformidade com o ideal sempre sonhado: boa profissional, bom salário, marido renomado. Nos bastidores, porém, uma insatisfação renitente. Odiava seu trabalho como médica; seu casamento carecia de amor, companheirismo, partilha.  Escutava reclamações das amigas, ou até de outras pessoas, mas nada que se comparasse às suas, sentia uma infelicidade latente, como uma bactéria a devastar-lhe dia dia órgãos vitais. Era chegada a hora de iniciar um tratamento contra a depressão. Depressão. A primeira vez que ousara pensar na palavra.

                     O analista era um homem charmoso, alto, elegante. Uma voz firme, mas de timbre baixo; muito sério, compenetrado, não desviava o olhar do paciente um instante sequer. Tamanha atenciosidade a conquistou de imediato, pois não restavam dúvidas de que alguém ali era muito importante, e esse alguém era ela. Rapidamente fez uma análise do lugar: bons tapetes, espaço amplo, estante com livros em perfeita organização, um divã preto, muito sofisticado, uma poltrona altiva, e um sofá pequeno, de dois lugares. Ao lado do divã, providencialmente, uma mesa lateral de mármore branco, com um suporte de lenços de papel. Havia um aroma cítrico no ar, e notou o difusor ligado a expandir aquele cheiro, que pensou consigo, ficaria registrado na memória afetiva.

                    Depois de acomodada, esperou pela pergunta. Sim, ele iria questioná-la sobre o porquê de ter buscado terapia. E então, o que tinha de fato a dizer? Quais seus problemas? Mas o que aconteceu é que ele começou a discorrer sobre o tipo de tratamento que seu modelo  psicanalítico abraçava; muito objetivamente traçou um perfil do que seria sua "linha" de atuação. Foi bom escutá-lo, pois suas palavras acabaram por propiciar um mote para aquele início de sessão, e prontamente, sem meias palavras, começou a falar. Fechou os olhos, e deu vazão a uma série reflexiva acerca do que se passava em sua vida nos útimos tempos; falou sobre o desprazer em ir trabalhar, atendendo pessoas no consultório médico, coisa que odiava mais a cada dia, o choro convulsivo na hora do banho, dos instantes em que se pegava falando sozinha no carro, de como fugia das amigas para não ter que socializar-se, da falta de libido para transar com o marido, e do igual desinteresse deste por ela, do desespero que a acometia ao ler uma notícia triste ou quando assistia a um filme, algo desproporcional e atormentador. E ainda: os instantes eternos em que se desligava de tudo, perdida em divagações; a falta de vontade de acordar, a vontade de dormir eternamente.

                   Ele escutou tudo com atenção, interrompendo-a de quando em quando para entender melhor o relato dos acontecimentos, para certificar-se de um detalhe ou outro. O fato é que não se deu conta, mas aquele fluxo narrativo durou praticamente toda a sessão, e quando abriu os olhos, o terapeuta informou-lhe que encerrariam ali, pois o tempo havia terminado. Perguntou-lhe se sentia-se confortável em ter desabafado tão francamente sobre o que a estava consumindo, e ela respondeu que sim. Olhou para ele depois de todo aquele tempo praticamente em transe, e sentiu um estranhamento. Havia dito coisas tão íntimas, revelado em palavras sua vida como não teria feito para seu marido, para as amigas, nem para si, e recebeu de volta uma mão estendida dizendo-lhe que para aquele dia estava bom, por conta do tempo esgotado. Francamente...    

                  No carro, ligou o som e colocou um CD qualquer. Não estava prestando atenção à música. Ficou a pensar no inusitado daquela tarde, no rosto daquele homem, nas suas palavras__poucas__ e em como estava se sentindo desamparada. Ele não havia lhe dito nada, uma expressão sequer de consolo, uma frase alentadora. Afinal, ela não merecia um abraço, um afago, um gesto de solidariedade? Só não desistiria por que havia pago caro por todo o mês, com direito a quatro sessões,  todas as quartas, às 16 horas. Na semana seguinte, prometeu a si mesma, falaria menos e escutaria mais. Aquele homem tinha que ajudá-la de alguma forma, estava ganhando para isso.

                  Os dias passaram como sempre, às vezes estava bem, e conseguia disfarçar melhor, mas então tudo voltava: o choro compulsivo, a necessidade de se esconder, as divagações, o medo de viver. No dia marcado, ficou apreensiva, talvez questionasse o tratamento. Reclinou-se no divã, e ficou a espera. Ele que falasse... Alguns instantes se passaram e o que havia ali era silêncio. Achou que ele pudesse estar escrevendo algo e espiou o terapeuta com o rabo dos olhos, contorcendo-se para avistá-lo no seu canto direito. Ele a olhava atenciosamente, e então, depois de um tempo que pareceu durar toda a eternidade, ele perguntou-lhe se já havia pensado em suicídio.

                  Imediatamente, recordou-se dos anos em que era uma estudante de medicina, das inúmeras aulas, dos muitos dias e noites estudando para as provas, competindo por boas notas e pela atenção dos professores. Adorava aquilo. O problema todo começou na residênca, quando passou a exercitar a medicina fora da teoria, colocando em prática os exercícios reais. Atender os pacientes lhe era angustiante, não gostava nada daquilo; a responsabilidade era imensa, assim como o temor de errar diagnósticos. Impressionante como lidar com pessoas é cansativo, principalmente em estado de fragilidade__ foi aí que descobriu que não existia qualquer glamour na medicina. Mas jamais pensou em desistir, pois as convenções por trás daquela profissão falavam mais alto. Pai e mãe orgulhosos, uma sociedade a paparicar-lhe pelo fato de ser jovem e médica. O noivado e casamento com um médico cardiologista mais velho, já com um nome estabilizado, foi um pulo, quase como algo previsível, marcado pelas linhas de um destino óbvio, o qual só havia esquecido de incluir felicidade no calendário das horas. Lembrou-se das noites solitárias, do mau humor do marido obsecado pelo trabalho, insensível a ela e ao que mais fosse, do fato de não poder ter filhos. Olhou para  o terapeuta e disse: "Sim, já pensei em morrer algumas vezes, mas jamais teria coragem de tirar minha própria vida".

                   O fato é que apesar de questionar o tratamento, de sentir ocasionalmente vontade de desistir, as sessões de terapia comemoraram um mês, e depois dois, cinco, oito meses. Até que após um ano e meio, olhou para trás e fez um histórico de suas mudanças. Havia se separado, e sentia-se mais liberta do peso das convencionalidades; ficou sem entender como podia ter demorado tanto para enxergar que há sim saídas possíveis, principalmente quando se é independente. O trabalho ainda a angustiava, não tinha prazer em lidar com o atendimento médico, mas prosseguia em meio expediente. No tempo restante, estudava para o doutoramento, focando numa área de pesquisa__ o que a livraria de lidar com o ser humano no angustiante corpo a corpo que tanto a desgostava. Ainda tinha suas crises de abstração, quando "viajava" para dentro de si, esquecendo família, amigos, preferindo o isolamento.  O mais importante, contudo, é que a terapia a fazia escutar a própria voz, a formatar as palavras que usaria para definir seu estado de alma.  Trata-se de um exercício de autoconhecimento que jamais imaginou empreender; agora refletia sobre sua existência sem desejar opiniões nem prescindir de conselhos alheios. Nesses instantes, focava na construção de resultados que se desenvolviam intimamente, em convergência com suas necessidades.

              Foi então que entendeu, por fim, o porquê do silêncio contumaz do psicanalista, afinal não era ele um conselheiro, mas o orientador desse processo que retira do ser as próprias respostas para o caminho a se trilhar.

 



Escrito por Sílvia Abrahão às 21h04
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Geração Y

                                                                                                    

               O humorista do programa CQC, Danilo Gentili, escreveu um livro que já vendeu, desde seu lançamento, em dezembro último, 12 mil cópias. A obra acaba de ganhar uma advertência  do Ministério Público do estado de São Paulo, como sendo inadequada para menores de 18 anos. O autor, pouco preocupado, deu de ombros, afirmando acreditar que o livro até venderá mais, uma vez que o proibido estimula a curiosidade. Em "Como se tornar o pior aluno da escola", Gentili ensina passo a passo como se colar em provas, explodir bombas em banheiros, copiar trabalhos da internet, fazer bagunça na sala, colocar apelidos nos outros, atrapalhar explicações do professor, entre outras pérolas do banditismo. Trata-se, sem dúvida, de um livro coerente ao autor, o qual foi expulso inúmeras vezes dos colégios que frequentou, com um saldo de 78 advertências ao longo de sua carreira escolar__ ninguém pode dizer que não há estofo, portanto, em tão magnânima publicação.

              Alguém precisaria avisar a autores desse naipe, contudo, que tais ensinamentos são desnecessários, uma vez os alunos da modernidade apresentarem-se bem nutridos de artimanhas engenhosas para a prática maquiavélica de suas deliberações. Ao contrário, é até estranho se constatar que apesar da passagem do tempo, da evolução de conceitos e valores, da substituição de uma geração por outra, esses jovens aloprados continuem executando ideias tão antigas. Muitos, ironicamente, assemelham-se a personagens do século retrasado, capazes dos mesmos discursos esvaziados e dos mesmos exercícios bestiais, possivelmente ansiosos por  assinar o atestado de imbecilidade que tão bem o retratam. Não foi à toa que respondeu Nelson Rodrigues, em uma de suas mais famosas tiradas, quando lhe pediram um conselho aos mais novos: "Jovens, envelheçam!".

              Nos cinemas dos shoppings, a tarefa de se assistir com atenção a um filme transforma-se numa estratégia de guerra, pois é necessário se desviar dos grupelhos de ignóbeis, dos deformados mentais  que infestam as fileiras nas salas de exibição a falar desbragadamente, gritar entre si, ridicularizar a tudo e a todos, gargalhando às alturas. A película, seja esta qual for, é elemento menor, posto estes jovens optarem pelo cinema como um mero detalhe, sendo o filme escolhido muitas vezes pelo cartaz, o qual apenas finaliza um passeio que começa horas antes pela andança contumaz pelos corredores, com pausa para os lanches intermináveis e a observação desvairada dos seus congêneres. O poder de atenciosidade diante do filme é pífio, sem que consigam se sensibilizar ante detalhes importantes, diálogos fundamentais, direção de arte; acostumados que estão às novelas da tevê, exemplo de dramaturgia facilitadora, sem qualquer complexidade intelectual, em que se assistir a um capítulo e perder dois não trará qualquer prejuízo para o entendimento da trama, transferem esses jovens para o cinema a mesma inócua atenção, desacostumados de um ideal que prescinde de concentração e silêncio.

               É realmente difícil se entender quando começa e termina a adolescência e seus paradigmas, fase essa que parece se estender, na atual sociedade globalizada, "ad eternum". Nos corredores das faculdades, a grande festa dos parvos teima em se perpetuar. Sim, são futuros médicos, engenheiros e advogados a trocar musiquinhas pelos seus celulares dentro da sala de aula, durante explanações de professores, a se atrasar, a fazer piadas inconvenientes e fora de hora, a demonstrar zero constrangimento pela ignorância observada em testes e seminários. Em um mercado de trabalho extremamente competitivo, em que não se perdoa a falta de habilidades, esses jovens cavam seu futuro em atividades menores, de subserviência, eternamente desempenhando funções de menor valia, das quais tanto deverão, posteriormente, reclamar. Bem, o que se nota após uma reflexão diante da postura que abraçam é nada mais do que o estigma do merecimento, ou seja, colherão aquilo que plantaram.

               Danilo Gentili realmente não precisaria ter se dado ao trabalho da escritura de um manual de lições que apesar de novo tem ranço de ultrapassado; seria infinitamente mais instigante que tivesse tido a destreza de escrever algo que conseguisse mudar a mentalidade de jovens modernos tão morosos na atenção, tão preconceituosos, tão maledicentes em suas atitudes contra o semelhante, em suas resoluções que aviltam o alheio através de toda sorte de instrumentos, como a internet. Um livro que lhes ensinasse  educação,  sensibilidade, respeito e  interesse por alguma coisa, de preferência aquilo que estudam. Aí sim nós teríamos uma obra revolucionária, digna do Nobel de Literatura e da Paz conjuntamente.



Escrito por Sílvia Abrahão às 12h08
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Infância roubada

                                                    

                               

                                    A loja britânica Primark retirou de circulação seu estoque de sutiãs com enchimento para meninas de até sete anos, após ser criticada por promover estímulo à sexualidade precoce. Nos Estados Unidos, uma associação de pais protesta contra sandálias de salto para crianças, a exemplo das utilizadas por Suri, a pequena celebridade "fashion", filha do ator Tom Cruise. Fatos como esses refletem o quanto o mundo dos pequenos, repleto de modelos imitativos, passa a ser expressivo, requerendo uma reflexão mais contundente acerca de suas possibilidades.

                    A criança nunca foi tão fortemente explorada como no atual século, quando ganha status de importante agente consumidor, a exemplo dos adultos repletos de necessidades de aquisição, expressas nos inúmeros bens que os projetam cotidianamente. Meninos e meninas não passam incólumes pela indústria maniqueísta do consumo, que subtrai todos às mesmas características essenciais, instigando a perpetuação de um só ideal: "compro, logo existo". Desde muito cedo, os valores sociais perpassados esbarram no pensamento de que somos melhores ao passo possuirmos coisas melhores. As crianças entendem esse recado com precisão, e influenciadas por seus  progenitores ineptos à arte de educar, correspondem com prestimosidade aos símbolos materialistas apregoados pela modernidade.

                    A inocência inerente à infância cede lugar à esperteza, ao vocabulário rico em expressões que povoavam, até então, a esfera dos mais velhos; as roupas das crianças são miniaturas do vestuário de seus pais, assim como os acessórios e os objetos de desejo. Em muitas casas, é a criança a responsável pelas suas próprias escolhas, possuidora de livre arbítrio para decidir sobre o que fazer no final de semana, a comida a se comer, a loja a que se vai para comprar, o programa de tevê a ser assistido. É ela detentora de poder insuspeito, ratificado por mães e pais subservientes, os quais parecem acreditar ser muito interessante um comportamento repleto de voluntariedade, sem tréguas no que concerne a uma fase que deveria ser reconhecida pelo prazer da descoberta, do descompromisso, do mágico pulsar das horas do relógio que nada representam. E mesmo se habitando um universo de domínio tecnológico, com tantas novas conquistas advindas do progresso, é inegável que se pode reverenciar a criança com brincadeiras mais lúdicas e pueris, sem prejuízo ao seu desenvolvimento intelectual, ao contrário, acirrando sua sensibilidade e o teor encantatório daquilo que a circunda.

                    As crianças da modernidade ganham celulares, têm computadores, adoram os jogos eletrônicos e conhecem o mundo virtual sem recalques, acostumadas a distâncias imensas que são diminuídas através de alguns toques do teclado a aproximar os amigos, os pais, a escola. Num mundo repleto de imagens, assistem a muitos programas fora de sua faixa etária, conhecem personagens de novela, atores, apresentadores, rendendo-se a uma mídia que a explora ocasionalmente como sinônimo de uma infausta diversão. Meninas imitam cantoras em clipes eróticos; uma voz infantil grava um verso de conotação sexual em um forró de grupo conhecido, e qual a resposta da sociedade? Achar tudo muito engraçado e inofensivo, até que alguém proclame, e nos lembre,  que vivemos em uma sociedade violenta, em que ações éticas estão sendo revisitadas para inibir fenômenos como a pedofilia, os maus tratos e o abuso moral contra crianças desprotegidas.

                   A infância é uma fase de nossas vidas em que comemoramos a ingenuidade, e não podemos admitir que isso se perca do olhar dessas pequenas pessoas, uma vez ser esse talvez o único instante em que tal sentimento se derá com real arrebatamento. Trata-se, ademais, de uma vivência de desconcertante rapidez, que sobreviverá apenas em nossa memória afetiva, independentemente dos anos à frente. Guardaremos para sempre os flashes daquele que fomos; a deliciosa sensação de recordar e nos avistar, no passado, tão plenos de inocência. Crianças que se comportam de forma semelhante a adultos não terão reminiscências de um tempo assoberbado de simplicidade, posto não terem mudado tanto, sendo eternamente parecidas consigo mesmas, em qualquer período de sua existência.



Escrito por Sílvia Abrahão às 11h56
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Reunião de amigas

                                                                                             

                      

                      O dia se aproximava como a uma chaga a infestar o doente, ou ao menos era assim que pensava. Maldito dia, maldita reunião. Sempre achara cafoníssimos esses encontros de ex-amigas de colégio, vinte  anos depois. Quem tivera a ideia? Alguma idiota desocupada, a ficar na internet horas a fio buscando perfis de coleguinhas de quinhentos anos atrás. Não podia ser alguém normal. Será que as pessoas não acham nada de importante para fazer? Sei lá...visitar um orfanato, um asilo; cozinhar, fazer crochê, tricô, uma colcha de patchwork daquelas em que se costuram os retalhos__ hum, isso seria ótimo, pois leva a eternidade.

                      As frases são as de sempre: "Como você mudou, está irreconhecível"__traduzindo, na verdade, o quanto você ficou velha e feia. Ou: "Você não mudou nada!" __ essa é típica das puxa-sacos enrustidas, falsamente benevolentes. E haja se falar em filhos, maridos, casa, viagens, cachorros... obviamente depois de se inquirir qual o rumo que tomamos, a profissão, o trabalho realizado, pois isso conta muito na escala de prestígio. Nada, contudo, pode ser mais avassalador do que ter se casado com alguém bem rico, talvez seja até mais importante do que ter escolhido a carreira de médica cardiologista ou ministra do Supremo. E entre coquetéis, ponches cheios de frutas__ eles são marca registrada dessas ocasiões__ salgadinhos e canapés, as amigas do passado confabulam, riem e se deliciam lembrando dos áureos tempos de escola, quando o mundo parecia tão mais simples, e os sonhos todos possíveis.

                __ Você lembra do Mario, aquele professor de geografia por quem todas nós suspirávamos? Pois é, largou mulher, filhos, tudo, e foi viver com outro homem. Virou gay, acredita?

                __ E a diretora, Maria Berenice, que foi denunciada por surrupiar o caixa da escola? Ela parecia tão séria, cheia de moral. Nós a encontramos há uns dois anos, no shopping, junto as netas. Está decréééééééépita!!!

                  Ah, não... só de imaginar diálogos como esses tinha vontade de vomitar. Começou a lembrar das meninas da sua turma e a sensação não foi das melhores. Nunca havia gostado de alguém especial no colégio, foram anos angustiantes, ao passo nunca ter conseguido se enquadrar ao modelo que reinava à época. As garotas eram fúteis, desagradáveis, pouco interessadas nos estudos. Falavam muito, fofocavam muito, e sabiam ser cruéis quando queriam; competiam pela atenção dos meninos, dos professores e travavam verdadeiras batalhas de ego.  É claro que as pessoas mudam, porém tinha lá suas dúvidas, afinal ela mesma havia mudado bem pouco, ao contrário, orgulhosamente sentia ter alicerçado ainda mais antigos valores.

                 Havia recebido convite, senha, informações variadas sobre o grande evento, que também exigia confirmação "obrigatória". Mas simplesmente não sentia vontade de ir, e julgava ser impossível haver ser humano capaz de dissuadi-la. O que teria para compartilhar? Não havia se casado, não tinha filhos, nem necessariamente um bom emprego. Seu carro era velho, seu cabelo estava curto, seu corpo redondo e sua cara mais ainda.  Possuía uma lista bem nutrida de frustrações, como as centenas de casos amorosos que a decepcionaram ao ponto de ter virado assexuada; havia sido internada por alcoolismo e vivia sob a égide do "só por hoje, não". Portanto, nem aqueles coquetéis de fruta poderia provar. Ah, quase ia se esquecendo: sua mãe perdeu no jogo a herança de sua avó, seu pai fugiu com uma empregada e o gato sumiu há dois meses. Bem, esse é o histórico de sua vida: será que alguém se interessaria por isso?

                 Os dias não perdoavam, e o tempo corria solto. Próximo a data da reunião das amigas, surpreendentemente começou sentir vontade de aparecer__ talvez só um pouquinho, o suficiente para sentir o clima e dar no pé assim que desejasse. Resolveu comprar uma roupa nova e marcou hora no salão de beleza para uma geral. No dia do evento, fez cabelo, unhas, maquiagem. Em casa, tomou um banho demorado, arrumou-se e se perfumou. Estava nervosa; havia um frisson no ar. Pensou pela centésima vez em desistir, mas apanhou a bolsa e saiu.

                 O lugar escolhido para o encontro era lindo. Estava iluminado por dezenas de luzes azuis, deixando a entrada e o jardim charmosos e convidativos; vários carros estavam estacionados e havia uma recepcionista à porta, sorridente, a receber as senhas e direcionar as madames. Entrou finalmente e avistou as mesas arrumadas com flores, bela louça, taças e copos de variados tamanhos.  Boa música embalava conversas, e as mulheres presentes já pareciam descontraídas, rindo e arregalando os olhos ao reconhecer mais uma da turma, e outra e mais outra. À primeira vista, passavam simpatia, "normalidade", nada de pedantismo. Havia todos os tamanhos de corpos e cortes de cabelos; matronas e magrinhas. Altas e baixas; as emperiquitadas e as informais. Olhou ao largo do salão, mas na sua ansiedade não reconheceu ninguém, e ficou estática, sem saber ao certo o que fazer. Deveria se sentar? Tomar um refrigerante? Ou sair à francesa, bem rápido, enquanto ninguém parecia notá-la?

                 Nesse instante, sentiu, por trás de si, mãos que a enlaçavam pela cintura, e girou o corpo. Deparou-se com Ana Beatriz, a Aninha, que a puxava para um abraço apertado. Quando mirou a amiga, observou nos olhos desta uma lágrima furtiva que descia desprovida de timidez. Emocionou-se instantaneamente, e pôs-se igualmente a chorar. Como poderia ter se esquecido? Aninha era aquela a quem contava seus desejos, confabulava sobre suas querências, problemas, com que criticava as demais pelas atitudes egoístas e falta de sensibilidade. Ah... como era boa aquela sensação, pois por alguns instantes parecia que o relógio havia retrocedido no tempo e então voltara a ser uma menina repleta de ideais imaculados.

                 Mal se desvencilhou dos braços da amiga e imediatamente foi abraçada pelas outras, todas emocionadas e receptivas. As lágrimas não paravam de cair e não foram poucos os lenços a passar de mão em mão, no mesmo exercício catártico que as aproximava numa identidade surpreendente. Escutou seu nome pronunciado dezenas de vezes, mesmo sendo ela própria incapaz de lembrar de uma terça parte daquelas que tão bem a recepcionavam. Foi levada à mesa, e sem se dar conta  do tempo que avançava noite adentro, compartilhou dezenas de histórias de vida as mais esdrúxulas, com relatos por ora alegres, exóticos, por ora angustiantes, trágicos. Aquelas mulheres falavam sem máscaras, entregues, de coração aberto. Não notou um momento que fosse de soberba ou arrogância, ao contrário, parecia que exercitavam o jogo da verdade, e de repente sentiu grande carinho por todas ali.

                 Casamentos desfeitos, traições, filhos problemáticos, perdas existenciais; os mais variados assuntos afloraram, sem meios tons. Muitas disseram seguir uma doutrina, fazer terapia, acupuntura, utilizar ervas, rezar terços, tentando encontrar um caminho para uma vida mais prazerosa num mundo tão conturbado. Ninguém negou suas frustrações, nem edulcorou a vida familiar, apenas proclamaram seus sentimentos mais recônditos. As músicas se sucederam, os coquetéis foram findados; comeram muito, riram muito e se entusiasmaram como há tempos não faziam, lançadas a uma sensação de volta ao passado que só os mais maduros podem conhecer. 

                  A caminho de casa, com a agenda repleta de telefones, e-mails e promessas de breve reencontro, sentiu-se culpada pelos pensamentos anteriores, pelos fantasmas que a assolaram sobre a reunião, e entendeu o quanto dos seus próprios recalques apareciam na atitude de julgar para não ser julgada, protegendo-se antes mesmo de ser atacada. Estava nítido nessas suas ações, entendeu bem, a necessidade de transformação, de rever antigos conceitos sedimentados, observando que, sim, todos podem mudar, ou até mais que isso: devem mudar. E este não era um aviso para terceiros, mas para si mesma.



Escrito por Sílvia Abrahão às 15h14
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A muleta dos covardes

                                                                 

                                 Há pessoas viciadas em celular. E não apenas para fazer e receber ligações, mas para segurá-lo na palma da mão firmemente, entre os dedos apertados. Para alguns, ele é tão necessário quanto o ar que se respira; ele está sobre a mesa do restaurante, ao lado do computador, próximo à pia do banheiro, à cabeceira da cama ou embaixo do travesseiro. Caminhando para cá e para lá, há aqueles que o encostam ao ouvido, fingindo uma atenção inexistente, posto ser inexistente o interlocutor__ talvez acreditem com isso passar a impressão de serem sociáveis, ocupados, requisitados, ou simplesmente significando serem temerosos da própria solidão, algo que os impele ao uso de tal artifício.

                  Há pessoas incapazes de opinar, seja lá sobre o que for, sem antes constatar o que pensa a maioria, para seguir então o reconfortante estigma da massa, a fim de não se comprometer ou se destacar por um ato contrário, abandonando sua zona de conforto. São aqueles que observam muito e falam pouco, mas não por serem sábios e despretensiosos, e sim omissos e covardes. À presença dos hierarquicamente superiores, agem como fantoches reticentes à espera de um sinal sobre que caminho suas inclinações devem seguir. Estes apegam-se à presença de terceiros como a uma tábua em meio ao dilúvio, reconfortados para zombar do alheio, traçar análises cínicas, rir desbragadamente, contanto que estejam, bem entendido, acompanhados. Sozinhos em um evento qualquer, são incapazes de respirar alto, para não serem descobertos e inquiridos.

                 Há pessoas que encontram na miséria humana uma redenção; alegram-se intimamente ao comparar a própria existência a dos menos afortunados, aliviando-se pelo fato de não se projetarem sobre os mesmos símbolos caóticos, apesar de insistirem no discurso da solidariedade e da comiseração. Muitas acabam se especializando em detectar problemas alheios, tomando a frente de ações de solicitude apenas como uma convencionalidade, sem de fato se importar com o que ocorre na vida de outrem, uma vez serem egoístas e autossuficientes. Nunca conseguem, ademais, realizar um feito de real importância no que concerne a um acontecimento que extrapole os limites de sua existência, pois não possuem vontade de agir sem que haja para isso uma recompensa pessoal.

                Há pessoas que são atraídas, exatamente, por aquilo que nos atraem __ sem que anteriormente houvesse sinais visíveis de tal compartilhamento. Apaixonam-se por aqueles pelos quais nos apaixonamos; querem as mesmas roupas que queremos; passam a usar nossos acessórios, nossas palavras; imitam-nos no andar e no falar. São seres humanos que nada criam, apenas reproduzem a criação alheia; como feras a espreitar a presa, observam o outro para lhes incorporar os próximos modelos de conduta. Reféns da cobiça e da inveja, atrasam sua existência, pois só conseguem prosseguir seguindo os passos que seus próprios pés não conseguem projetar.

               Há pessoas, finalmente, que se furtam dos desvairios de uma sociedade repleta de síndromes humanas, e conseguem, sim, empreender o exercício da sensibilidade e do prazer. São aquelas que compõem seus dias sob a ótica da correção, da retidão de caráter. São capazes de se emocionar diante da tragédia alheia e ocupar-se com ações prontificadas, aptas a uma ajuda objetiva, factual. Não gostam do cinismo que se avista nos relatos sobre o outro, quando o outro se encontra a três metros de distância; dispensam as elucubrações infames e se apegam a simplicidade das reflexões, mais afeitas à verossimilhança. Estes homens e mulheres são um bálsamo para dias em que a humanidade parece tão propensa ao estranhamento, à conturbação, ao desequilíbrio; aprendamos com eles, abertos que são a um ideal de vida repleto de autenticidade, alegria, desprendimento, sem a necessidade de máscaras sórdidas ou a manipulação de terceiros. Íntegros no percurso que traçam para si, dispensam as muletas sociais, as quais nem de longe são elementos imprescindíveis quando somos seres aptos a uma existência de plenitude.



Escrito por Sílvia Abrahão às 23h20
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Mentira: passe livre

                                                                                               

                                                                    

                     É fato que todos mentem. Em algum instante, por mais escrupulosos que sejamos, ela estará lá, a mentira. Talvez como recurso para se evitar uma ofensa, como uma saída estratégica, ou simplesmente para camuflar dissabores. Se a vida, sabemos bem, não é eternamente formatada por momentos edulcorados, conhecer estratégias para facilitar a convivência em sociedade passa a ser sinônimo de inteligência, uma forma, ademais, de nos pouparmos de entraves desnecessários.

                    A "mentira social" tem passe livre no cotidiano por não representar, necessariamente, danos ou aniquilamentos; ela está  presente no dia a dia em atitudes simplistas, como ao se responder "que está tudo bem" a um cumprimento banal, quando na verdade se está vivendo um inferno particular, ou ainda elogiar alguém, sem crença nas próprias palavras, apenas com o intuito de agradar. E mais: ao se proclamar perdão absoluto aos desafetos, mas sem jamais esquecer a dor de uma emboscada. Por vezes tão institucionalizada, essa mentira não é percebida como um pecado soturno a nos roubar a dignidade ou o orgulho.

                   Apesar de muitas vezes recorrermos ao estímulo da dissimulação, indubitavelmente não apreciamos quem assim o faça. Em alto som, as pessoas costumam execrar os mentirosos, atribuindo-lhes uma saraivada magnífica de adjetivos torpes, sem qualquer comiseração ao simples sinal de um ato falso, uma mentira anunciada. Nesse sentido, pode-se perceber, a lei da relatividade deixa de existir e o peso da balança acaba por pender para apenas um lado, sem chance de se minimizar o estrago cometido. Não somos condescendentes quando, afinal, deixamos de lado o papel de algoz e nos transformamos em vítimas da mentira__ nesse instante, nem aquela menor, anteriormente considerada inofensiva, irá passar incólume. É claro que, em uma sociedade que se nutre de símbolos de civilidade, a mentira não pode (nem deve) ser considerada um ato menor, principalmente as patológicas.

                  Há pessoas que não vivem sem mentir, mas não pequenas mentiras sociais; são responsáveis, sim, por grandes dissimulações afeitas ao destrato e desrespeito do semelhante. São sociopatas que se utilizam de todos os recursos de que dispõem para conseguir atingir o alvo de suas querências, sem jamais desperdiçar um segundo que seja diante de reflexões sobre o estrago que produzem; simplesmente não se preocupam nem tampouco se incomodam com o fato de que prejudicarão alguém após as tramóias empreendidas. São indivíduos que não possuem escudos morais, incapacitados de abraçar conceitos éticos, ou ao menos de explaná-los em suas atitudes; quando discursam altivamente sobre retidão de caráter, proclamando-se íntegros e retos como seres humanos, mentem.

                  Oscar Wilde, em um de seus irônicos aforismos, disse que "só os tolos não julgam pela aparência". Talvez o que esteja subentendido nesse anti-clichê seja o fato de que, de alguma forma, somos todos reconhecidos por nossas ações não verbais, e nunca deixamos de oferecer pistas para isso; o modo como olhamos, falamos, gesticulamos, mexemo-nos enfim. A essência faz-se retratada na aparência muito mais do que gostaríamos de aceitar. É claro que mentirosos "profissionais" são capazes de interpretar até mesmo no âmbito corporal, posto sejam atores tarimbados por uma existencialidade plena de hipocrisias, muitos dos quais talvez nem reconhecendo a si próprios caso um dia fossem colocados à prova de identidade; mas no prosaico cotidiano que nos consome a todos, um radar seletivo e sensível ainda pode nos trazer bons frutos no que concerne à análise de terceiros e de suas máscaras pregadas à face.

                   



Escrito por Sílvia Abrahão às 13h16
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A paisagem vista do alto

                          

                                                                                                              

                                             Todos os dias a mesma vista estava lá, e pela ampla janela, do alto, podia observar aquela torre enorme. Era impossível não se lembrar dos inúmeros filmes que a traziam como ícone máximo a celebrar a cidade, a paisagem. Estava com pena de deixar aquele lugar, mas os dias seguiam contados para sua despedida, afinal tratava-se de férias, e estas, todos bem sabem, têm tempo certo para começar e acabar.

                             Fez uma promessa para si mesma, voltaria quando pudesse, nem que tivesse que economizar todos os tostões possíveis. As passagens de avião, estadias, dinheiro para refeições, diversão, compras... bem, nada era barato! Não para ela, uma simples mortal trabalhadora, dependente de salário (que não era dos piores, é verdade), sem provisões guardadas e com poupança estourada permanentemente. Uma viagem como aquela era um sonho realizado, o qual deveria ser desfrutado em todos os segundos, minutos e horas. E pensar que antes dessa empreitada, estava praticamente entrando em depressão__ desanimada, "desapaixonada" após o término de um relacionamento. E seguindo os inúmeros conselhos ouvidos, os quais proclamavam em uníssono que "nada melhor que uma grande viagem para recuperar as energias, surpreender-se e mudar", seguiu em frente.

                             Encantou-se por Florença, charmosa, cheia de monumentos extraordinários, uma cidade que respira arte e tradição; adorou a Toscana, simples, enfeitada, repleta de flores, pequenos restaurantes e gente de todas as idades; decepcionou-se com Veneza, algo suja, antiga, sem um quinto do charme disseminado; não encontrou o romantismo que esperava em Roma, desorganizada e barulhenta. Paris foi o seu maior achado. Na verdade, já sabia que iria amá-la... guardava  no coração todos os clichês apregoados sobre a Cidade Luz, os filmes assistidos. Sabia o nome das ruas, praças, grandes avenidas. Conhecia recantos e histórias sobre as lojas, restaurantes, cafés, magazines, hotéis. Estava se sentindo fulgurante por estar ali.

                            Visitou os museus mais importantes __o Louvre, duas vezes __ os jardins de Luxemburgo, a Catedral de Notre Dame, fez compras abençoadas nas lojas escolhidas a dedo (não exatamente as grandes grifes, caríssimas), e andou muito...muito. Percorreu o Quartier Latin, conheceu o bairro do Marais, com seus ateliês, ruas antigas e brechós descolados, passeou pelos arredores do Rio Sena, apreciando seus diversos recantos, Montmartre... praticamente converteu-se numa francesa (quase) autêntica, porém o olhar inquisidor e excesso de observação a traía a todo instante. As francesas são elegantíssimas, mas muito simples no seu ritual diário; elas não erram jamais no figurino; nas suas caminhadas pelas ruas, são altivas, independentes, rumando como um soldado estiloso repleto de savoir faire

                             Passava horas nas praças, só olhando... olhando, tomando goles de água Perrier. Gostava de ficar nos arredores da Torre Eiffel, onde muitas pessoas se encontram, de todos os lugares, mas também subir para visitar a cidade lá do alto, magnífica. Nesses instantes, perdia o fôlego, pois a vista era de arrepiar. Em outras horas, apreciava se isolar mais, para sentir a Paris dos parisienses, e não dos turistas deslumbrados (como ela!). E então, faltando ainda alguns dias para seu regresso, inesperadamente, começou a se cansar. Sim... a emoção das primeiras semanas cedeu lugar a uma certa conformidade com a paisagem. Notava, todos os dias, o quanto os franceses podiam ser grosseiros e impacientes com turistas que não falassem sua língua, ela mesma havia sido tratada com rispidez numa padaria próxima ao hotel, que jurou não mais frequentar. As pessoas, sempre apressadas ou absorvidas em seus afezeres, não pareciam muito receptivas a qualquer coisa que não dissesse respeito às suas próprias vidas. Várias vezes, sentiu-se só, abandonada em pensamentos, exatamente como acontecia normalmente em sua vida, bem longe de Paris.

                            Comprando lenços franceses em um grande magazine, não pôde deixar de observar que eram os mesmos lenços que as francesas compravam e usavam, todos os dias. Não havia glamour nisso, apenas normalidade. E assim com as bolsas, as roupas, os sapatos. Os perfumes eram aqueles que adquiria nos shoppings de sua cidade, só que mais caros. Tudo normal... as baguetes penduradas sobre o braço, os pedaços de queijo embrulhados em papel, uma certa falta de higiene a incomodar narizes sensíveis como o dela. E o preço de tudo: ulalá!!! Uma verdadeira extorsão. Não gostava como certas pessoas a olhavam na rua, com um pouco de desdem, ou seja lá o que significasse, ficava em dúvida entre possuir complexo de perseguição, baixa autoestima ou o fato de que eles eram realmente blasés. De repente, foi ficando realista e abusada, mas nunca deixou de admirar os maravilhosos jardins e aquelas flores soberbas, apesar de agora gastar menos tempo nisso.

                            Finalmente, começou a contar os dias para a volta. Estava com saudades de seu apartamento, de sua cama, de sua vida! Já havia comprado "lembrancinhas" na Gallerie Lafayette para a família e as amigas, ou seja, tinha dado conta das "obrigações". E pensar que, antes da viagem, sonhava com essas compras, arquitetando o que traria para cada um, com um entusiasmo quase infantil. O que aconteceu na verdade, confessaria apenas para si mesma, é que esse ritual fora extremamente estressante, uma chateação das maiores, pois a galeria vivia infestada de gente se acotovelando e contorcendo em busca de seus souvenirs.

                            Os homens eram baixos, de estatura baixa. Narizes grandes, corpos magros, feios. Não encontrou nada do famigerado charme apregoado aos franceses; eram comuns__ alguns mais bacanas, simpáticos, mas não a maioria. Não teve romance nessa viagem, o que não deixa de ser decepcionante para uma mulher jovem e bonita em busca de paixão, mas sem desespero, bem entendido. Ao final e ao cabo, conformou-se, e não apostou mais suas fichas nisso, o que de certa forma a salvou de desalentos. Afinal, alguém já disse: "O amor não se busca, ele vem sozinho".

                            O dia do regresso foi uma festa. Uma festa íntima, bien sur. Estava feliz em partir, talvez até mais do que estivera ao chegar. A visão de todos os lugares visitados ficaria armazenada durante um bom tempo, como fazemos normalmente ao invocar lembranças de viagem. Havia tido boas experiências; a beleza de alguns recantos registradas nas centenas de fotos que tirou comprovavam isso, mas grande parte da idealização que possuía caíra por água abaixo. Aliás, talvez fosse melhor assim, voltaria mais realista, valorizando seu país. Não pôde deixar de lembrar de seu poeta preferido, e de um aforismo antigo que ele havia criado: "Viajar é mudar o cenário da solidão". Ah, Quintana... sempre tão simples e tão sábio! Pensou na imagem da Torre, a qual podia ver todas as manhãs, quando abria a janela. É irônico, mas tudo visto do alto parece tão mais glamuroso; do alto, todas as cidades são bonitas, as pessoas mais misteriosas e as possibilidades, infinitas.

                            A próxima viagem teria que ser algo mais exótico, pensou consigo... talvez mar, céu azul e drinques inusitados. Veio-lhe à mente, no mesmo momento, a imagem da Grécia. Aquelas casas todas brancas, ilhas estupendas, lojas de primeira, e o homens... uau! O que dizem mesmo dos homens gregos? Os melhores amantes do mundo? Bem... será? Com certeza seriam mais quentes que os franceses, podia apostar. Iria conferir... Um frisson percorreu-lhe o corpo e sorriu marota. Agora precisava afivelar as malas, pois havia chegado a hora de partir. Ou melhor, voltar. E nesse instante uma deliciosa sensação a consumiu.

                            



Escrito por Sílvia Abrahão às 21h27
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O destino de todos nós

              

                                                                                                

                             Em Bruxelas, na Bélgica, uma mulher de 67 anos, deprimida desde o falecimento do marido, três anos atrás, resolve cometer suicídio atirando-se do 12º andar do prédio em que mora. Ao cair, ela atinge um morador que se dirigia à porta de entrada do edifício, um senhor de 72 anos. Ambos morrem instantaneamente.

                Para todos nós, fica claro que um acontecimento como esse se trata de uma fatalidade, um episódio de bizarra ironia. É bem verdade, contudo, que a partir de relatos surpreendentes ou chocantes, venha-nos à cabeça uma série de reflexões sobre a vida, a morte e os enigmas da existencialidade. Não sabemos quando nem como sepultaremos nossos corpos na terra, mas concordamos unanimemente ser esta a única certeza que possuímos. Apesar de entender que o epílogo é inexorável, a sociedade ocidental, principalmente, não parece propensa a lidar com a morte de maneira natural.

                 A evolução científica e tecnológica possibilitam ao homem uma vida mais extensa, repleta de símbolos que se traduzem numa existência mais módica, confortável, estendida em novos anos, os quais, a priori, trariam-lhe mais possibilidades de prazer e contemplação. No cotidiano perverso das grandes cidades, estigmatizadas pela síndrome da competitividade, do tempo cada vez mais escasso para atividades lúdicas, o que se nota, ao contrário, são formatos sociais que levam o ser humano, muitas vezes, a viver de forma pouco satisfatória, colocando à prova os ingredientes do regozijo anunciados conjuntamente aos anos a mais de vida conquistados pelo progresso. O resultado disso são doenças emocionais e psicossomáticas que se tornam comuns em meio a uma sociedade pouco afeita às reflexões ante a arte de viver. 

                Se sabemos ser o fim o nosso destino, este sem hora marcada nem aviso prévio, seria preciso mudarmos nossa concepção quanto ao exercício diário que praticamos de vida, desde o instante mesmo em que nascemos. As preocupações ineficientes, as cobranças desnecessárias às quais nos submetemos e aos outros, as lastimáveis discussões que empreendemos a fim de projetarmos nossas intempestivas e únicas verdades, a não aceitação daquilo que somos, preocupados que estamos em seguir fórmulas alheias de sucesso e mais valia são apenas alguns dos entraves que exterminam o preciosíssimo tempo de vida de que dispomos; posto seja este finito, não deveríamos, por sua vez, desperdiçá-lo de forma tão pouco nobre, em rituais mesquinhos e monocórdios.

                Nosso destino está escondido nas linhas de nossa mão? Pode ser avistado na borra do café que tomamos, no fundo da xícara? É arquitetado em conivência com os símbolos esotéricos do cosmos? Está ele nas cartas do tarô? Ou será que somos nós mesmos os responsáveis por ele? A verdade é que ao mesmo tempo que a disposição, a força de vontade e a obstinação levam pessoas a correr atrás de seus ideais e de suas querências, não podemos menosprezar o papel do misterioso dedo do destino a nos surpreender e desviar de caminhos previamente traçados, como a nos alertar para o fato de que a vida não é tão previsível e óbvia como insistem alguns em pensar.  



Escrito por Sílvia Abrahão às 20h17
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P O E M A

                                                                                

                                                                                  Tenho um encontro marcado

                                                  comigo

                                                  Não posso faltar

                                                  Já estou atrasado

                                                  Quanto tempo?

                                                  Algumas horas, vinte anos?

                                                  Vou levar um presente

                                                  Um livro, uma flor, um lenço...

                                                  De que gosto mesmo?

                                                  Esqueci, tenho que ver na agenda

                                                  Já não lembro direito: quem sou?

                                                  O tempo passou rápido demais.

                                                  E esse encontro há tanto adiado

                                                  Talvez não aconteça jamais.



Escrito por Sílvia Abrahão às 20h25
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Sobre professores e alunos

               

                                                                     

                            Muito se debate sobre educação; estigmatiza-se o processo ensino-aprendizagem diante de toda sorte de teorias, das mais simples às estapafúrdias e inócuas. A bem da verdade, o que de fato deveria preocupar, o maior desafeto de todo o processo, é maquiado para não assustar em suas linhas as mais cruas: o aluno não aprende.

                 Uma série de itens são exaustivamente discutidos por burocratas e pedagogos a léguas de uma sala de aula, como disciplina, metodologia, planos de curso. Analisa-se a função do professor, a postura do aluno. Mas não se toca no câncer aberto que se expande em metástase: o aluno não aprende.

                 Uma juventude modorrenta e acéfala ocupa os bancos escolares; suas vozes reproduzem em uníssono os mesmos assuntos frívolos, as mesmas toscas análises. O jovem foi cooptado pela ideologia do consumismo, da vaidade, da indolência. Criou-se uma indústria mundial que tem como função enaltecer e reverenciar a juventude, sua principal fonte de sustentação, e a partir disso ganham esses jovens papel singular na sociedade__ são a um só tempo vítimas e algozes. Para a indústria, possuem serventia apenas como agentes comerciais; para si mesmos, senhores dos próprios desejos, sejam estes quais forem.

                 Nas escolas, públicas e privadas, é notória a falta de vontade para se aprender. Para muitos, as diversas disciplinas são cansativas, maçantes, difíceis; e os professores, ineptos. Apesar de vivermos na era da informação, nossos pupilos são extremamente desinformados, não obstante as muitas possibilidades de acesso aos meios de cultura. As tentativas de debate são frustradas, pois não há o que se debater quando as partes não estão cientes dos assuntos em xeque; as opiniões são truncadas, superficiais, ou simplesmente inexistem, ao passo os alunos desconhecerem o assunto por total falta de interesse. E novamente se vislumbra o quadro: o aluno não aprende.

                 Aulas expositivas, músicas, filmes, palestras, laboratórios; mil e uma artimanhas para seduzir o jovem desmotivado e letárgico. O que se colhe de tal esforço é, ironicamente, o contrário: desestimula-se o mestre, exaurido em suas forças, inerte diante da batalha travada. Doenças psicossomáticas, desafetos, estresse, síndromes variadas ou específicas, como a de Burnout, são graves exemplos das afecções que acometem o professor contemporâneo, uma voz solitária que clama por ser ouvida, um personagem que clama por ser assistido, um ser humano digno que clama por ser respeitado.

                 Os testes (instrumentos necessários para a medição do conhecimento, até que algum teórico cheio de ideias revolucionárias os proclame ultrapassados ou desnecessários) retratam a hecatombe; os alunos rejeitam as provas dissertativas, reclamam das questões abertas, menosprezam matérias como filosofia e sociologia, as quais dizem não ter serventia por não caírem nas provas de vestibular, insurgem-se contra a redação. Não querem escrever, por que não querem pensar!

                 Em enquetes com vestibulandos prestes a inicializar o caminho rumo à profissão, conclui-se que poucos têm aptidão para a área escolhida; grande parte se decide por cursos em evidência, outros se contentam com as facilidades das faculdades particulares, hoje afeita às variadas classes sociais, com mensalidades para todos os bolsos. Não é pequeno o número daqueles que erram inúmeras vezes o caminho  pelo qual optaram, mudando de curso até descobrir finalmente (ou não) o que querem. Apenas uma pequena parcela parece consciente da carreira a seguir, não por acaso os mais compenetrados nos estudos, responsáveis, instruídos e interessados.

                 Lamentável, sem dúvida, o universo que assola o professor, solitário diante de turmas cada vez maiores, destituído do seu posto de mandatário, sujeito às intempéries das resoluções jurídicas que o proclamam culpado diante da maioria das ações de represália dentro das escolas; submisso às diretrizes do mercado, que o substitui ao menor sinal de inadequação, seja lá o que isso represente. O professor não possui mais mesa e cadeira, pois as teorias modernosas aboliram estes objetos da sala de aula por considerá-los sinal de acomodação ou displicência do mestre; ele não tem mais autonomia; ele não tem mais regalias; ele não tem mais voz ativa, a qual é calada ao bel-prazer da insatisfação de diretores, supervisores, pais, alunos.

                 O professor sofre com a acomodação dos estudantes, a ausência de uma percepção crítica inerente ao estudo e à compreensão do assunto que transmite; estimula opiniões e recebe de volta risadas, silêncio, indolência; tenta ensinar para quem não quer aprender. Do alto de sua estupefação, observa jovens que são capazes dos mais aviltantes jugamentos, que lançam sobre o semelhante uma impressionante visão esteta, que o ridiculariza, humilha, aniquila__ podendo ser estas quaisquer pessoas que julguem merecedoras de sua ira e de seu escárnio. Muitos desses jovens, sabendo que detêm poder, dele fazem uso em conformidade com suas índoles, e tal qual estrategistas cerebrais em guerra, articulam planos mirabolantes contra seus desafetos, usando para isso o quartel general da modernidade: a internet.

                 O que resta é o salve-se quem puder. Em uma sociedade de valores deturpados, cada dia de sobrevivência é o prêmio concedido.

                 



Escrito por Sílvia Abrahão às 21h15
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Uma palavra, várias lembranças

                                                                                    

                                                      Conversando sobre a força das palavras com amigos letrados, começamos um jogo para escolher nossas expressões preferidas; à mente me veio, no mesmo instante, aquela que sempre julguei ser meu talismã: árvore. Sonora, opulenta, pungente... trata-se de uma palavra robusta; uma proparoxitona das mais encantadoras. Árvore é um termo, ademais, de muitos significados, que instiga inspirações filosóficas ou simplesmente ternas; sua simbologia traz uma série de possibilidades: fertilidade, crescimento, amadurecimento, vida.

                               Árvore. Repito-a várias vezes, e a cada uma ratifico a musicalidade presente em suas sílabas. Fecho os olhos e vejo um chorão que ficava no jardim de uma casa pela qual passava a caminho da escola, todos os dias, nos idos da pré-adolescência. Lindo e triste, impávido em sua melancolia, aquele chorão foi meu objeto de desejo durante um bom tempo, quando então o consumismo "high tech" não era moda entre os jovens, e se podia sonhar com coisas mais poéticas, como possuir uma árvore. Na minha mentalidade pueril, nunca me ocorreu que árvores poderiam ser plantadas, cultivadas; acreditava apenas que elas existiam em determinados lugares e pronto__como se fossem anteriores às construções, às casas, às próprias pessoas.

                              Na adolescência, viciada que era em leitura, recordo-me da sensação de prazer ante as obras de mistério de Agatha Christie, e do primeiro livro que li da dama do suspense: "O Cipreste Triste". Havia esta árvore na capa, algo soturna, sombria, e de novo me veio aquela  boa sensação, como a reconhecer algo familiar. Aquele cipreste me entusiasmou a procurar por essa espécie na vida real, coisa que só consegui muitos anos depois, de novo passeando distraída pela cidade até me deparar com um jardim frondoso em que ele, o cipreste, era o personagem principal. Mas a recordação ainda mais forte vem de um natal familiar, quando meu pai encontrou um pinheiro num bosque pelas redondezas. Ele já estava cerrado, talvez pronto para ser transportado por alguém, e o fato é que na minha casa é onde ele foi parar. A cena daquele pinheiro imenso adentrando à sala, e minha mãe nos dizendo que teríamos que providenciar muitos enfeites, é de uma vivacidade impossível de descrever. Volto a esse tempo, vejo a árvore ocupando um terço do espaço, toda colorida, com centenas de bugigangas a adornar-lhe os galhos muito verdes, as luzes do pisca brilhando, e por um instante tenho vontade de chorar... dói a despedida da infância, da inocência, e dói ainda mais não poder recuperar os sons, os cheiros, as imagens de uma época tão plena de sonhos, tão simples e tão fácil de ser vivida.

                             Árvore é a primeira palavra que me ocorre quando são pedidas "senhas" para operações eletrônicas; árvore é a palavra que busco quando necessito me acalmar; árvore é a desculpa perfeita quando penso em um motivo para trocar o apartamento por uma casa. Estradas repletas de plantações de eucalipto fazem qualquer viagem valer a pena, assim como se recostar numa cadeira ao tronco robusto de um jatobá pode ser um delicioso programa, principalmente se contarmos com a companhia de um vento frio a nos acariciar os cabelos, sem pressa de sair, de se despedir, sem nada pra fazer. Nas praças, as árvores são um espetáculo à parte da natureza, a qual nada cobra pela incrível visão que nos proporciona em todas as estações do ano; no outono melancólico e na primavera festiva, com galhos repletos de flores multicoloridas__brancas, amarelas, vermelhas.

                             Nas ruas, olho para as árvores nas calçadas, e elas parecem tão soberanas; gosto das árvores dos bairros antigos, onde assemelham-se a velhas senhoras, donas da cidade, incontestes em sua experiência de tudo saber, e quando são pequeninas, recém-plantadas em mudas, fincadas em estrados pelas prefeituras, no meio das avenidas, sinto o estigma de sua energia__ de preservação, de transição e, finalmente, de esperança. Os muitos tons de verdes, alguns tão particulares, acalentam nossas almas por vezes desoladas diante de tantos entraves diários, da correria inerente à nossa condição de seres ocupados e preocupados em sobreviver ao término da longa jornada de um dia.

                             Mas a melhor sensação encontro ao chegar em casa, cansada: ao abrir a janela do meu quarto, no terceiro andar de um pequeno edifício, as encontro sempre lá__ árvores verdíssimas, reluzentes, a me desejar boas-vindas. Como a estender seus galhos num abraço afetuoso, miram-me repletas de uma energia vital, a qual imediatamente consome meu coração, redimindo-me de dissabores e aborrecimentos, e me enchendo de paz.



Escrito por Sílvia Abrahão às 21h48
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O Escafandro e a borboleta

                                                         

                                                        A notícia publicada por sites internacionais sobre a inglesa Mia Austin, uma bela jovem de 21 anos, que após sofrer um AVC de incrível magnitude, foi acometida pela síndrome do encarceramento, fez com que me recordasse, há algum tempo, de ter experimentado uma verdadeira obsessão pela história do editor francês da revista "Elle", Jean Dominique Bauby, igualmente vítima desse desolador fenômeno.

                                      Bauby, aos 43 anos, era um homem atraente; um jornalista parisiense trabalhando em meio a uma atividade glamurosa, moda. Como editor de uma das mais renomadas revistas do mundo "fashionable", tinha passaporte garantido para festas e eventos elegantes, mantendo amizade com artistas, estilistas e modelos de alto gabarito. Era o que se poderia chamar de um "bon vivant"__aliás, um grande amante das mulheres. Entre viagens pelo mundo, decisões sobre editoriais, namoros efêmeros, ele é pai ausente de dois filhos, frutos de um casamento desfeito, e é em uma de suas visitas aos filhos que Beauby sofre, dirigindo seu carro no meio da estrada, um acidente vascular cerebral que para sempre o deixaria preso dentro de si mesmo__a chamada "locked-in syndrome".

                                      Após vinte dias em coma, ao acordar Bauby descobre que está completamente paralisado, incapaz de mexer qualquer parte do corpo ou pronunciar uma palavra que seja. Seu estado de saúde é lamentável; a aparência física perdeu todo e encantamento de outrora. Um dos olhos é costurado por conta de uma infecção renitente; seu corpo está vinte e três quilos mais magro e ele agoniza em meio a tanta adversidade, mantendo intacta, contudo, sua condição intelectual. Sim, Dominique está consciente, pois nada foi alterado em suas funções cerebrais. Desesperado, imóvel, observa em agonizante silêncio aqueles que o circundam sem que entendam seu estado, suas vontades __ está, literalmente, encarcerado dentro de si.

                                      Duas jovens médicas dedicadas a Bauby descobrem, todavia, que ele possui uma possível habilidade para se comunicar ao piscar a pálpebra esquerda, a única parte do corpo disposta ao seu comando (a priori, uma piscada para "sim"; duas para "não"), e com uma placa do alfabeto, piscada por piscada, letra por letra, ele começa a criar palavras e frases inteiras, revelando seus desejos e conduzindo seus pensamentos. Depois de algum tempo, Bauby tem a ideia de escrever um livro, e sua editora envia-lhe uma assistente para ajudá-lo__a qual o guia nesse feito aparentemente improvável: confeccionar a obra que ele julga ser seu libelo de vida.

                                     Para que não haja grande perda de tempo, Bauby, todas as noites, antes de dormir, "escreve" um capítulo do livro em sua cabeça, e o memoriza, de modo que, no dia seguinte, à presença da secretária, a qual lhe dita as letras do alfabeto, uma a uma, haja uma dinâmica mais rentável, sem tanto esforço e desgaste__ quando escuta a letra que lhe interessa, ele pisca, e o alfabeto volta a ser repetido consecutivamente, formando assim as palavras, os períodos, os parágrafos inteiros. Pode-se imaginar o quanto há de persistência e cansaço em um exercício desses moldes, algo para a maioria de nós desesperador.

                                     Foi assim que Jean Dominique Bauby escreveu o livro "O Escafandro e a Borboleta", vendido com sucesso mundialmente, traduzido para mais de trinta idiomas. Trata-se do relato verossímel de seu acidente, a doença que o paralisou todo o corpo, à exceção da pálpebra esquerda, e da vida ativa e plena que descobriu existir em seu coração inalterado; em uma narrativa pungente, vívida, por vezes bem humorada e sempre sagaz, Bauby nos conduz a uma viagem singular a seu universo pessoal, suas elucubrações sobre a existência, sobre si mesmo e sobre os outros. Saber que cada palavra descrita é formada por letras piscadas por Dominique transforma o livro em um exercício arrebatador. E ao contrário do que se poderia presumir, a obra não tem como mote o estigma da depressão, nem de longe se parece com um manual de autoajuda; não há pieguismo, sentimentalismo. Há sim sensibilidade, a descoberta de um jardim interior onde, como as borboletas, o autor dança livremente, escolhendo ao bel-prazer o lugar onde pousar.

                                     Em 2007, foi produzido o filme "O Escafandro e a Borboleta", baseado na obra de Bauby. E temos aí uma nova surpresa: a interpretação do ator Mathieu Amalric, em notável entrega ao papel, e a forma como o diretor, Julian Schnabel, trata a tragédia não apenas para Dominique, mas a todos que o cercam, com serenidade diante da dureza dos fatos que se mostram agora tão reformulados. O posicionamento de câmera, com o protagonista como interlocutor oculto, espiando a tudo apenas com seu olho esquerdo, até quase metade do filme; o instante em que se vê desforme pela primeira vez após o acidente, com um corpo que em nada lembra sua aparência de antes; a aproximação dos filhos e da ex-mulher; o afastamento da namorada incapaz de encará-lo nessa nova vida de limitações__são muitos os momentos memoráveis e as soluções artísticas que não transformam o filme em um dramalhão repleto de chavões. 

                                  Ao final da jornada, após conhecer livro e filme, o que se tem são dois documentos existenciais que nos capacitam a pensar sobre o dia de hoje, o que possuimos e aquilo que podemos perder ao gosto de um destino afeito a ironias, posto não sejamos donos de nada, nem de nosso próprio corpo, um mero escafandro a nos mergulhar, a qualquer instante, rumo à aventura do desconhecido.

                                                           

                                      



Escrito por Sílvia Abrahão às 12h18
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Mulher, mostra tua cara!

                                                                                             

 

                                     "Não se nasce mulher, torna-se". Essa frase de Simone de Beauvoir, em sua aclamada obra "O Segundo Sexo", trouxe à tona uma reflexão sobre a condição feminina como nunca antes se havia imaginado conceber. A escritora francesa, de certa forma, revolucionou os conceitos até então fomentados acerca do papel da mulher a partir dos anos 50, quando se permitiu transcender seu tempo e a todos os outros, proclamando uma concepção mais libertária e filosófica para a identidade feminina, quando a palavra "feminismo" ainda não havia sido pronunciada. A partir daí, entendeu-se que a mulher conquistaria sua real liberdade rumo às escolhas que fizesse no instante em que adentrasse à vida acadêmica e, por conseguinte, ao mercado de trabalho.

                               Décadas se passaram desde esse furacão "beauvoiriano" presentear o mundo com suas concepções acerca do ideal feminino, e o que temos hoje? Um mundo recheado por mulheres presentes em todas as funções trabalhistas; são figurantes e protagonistas nas mais variadas profissões, ocupando importante espaço num universo que se rende à condição feminina com cada vez menos questionamentos quanto a seu valor de competência, com cada vez menos estranhamento ante sua presença. A mulher transita por todos os campos, caminhando soberana pelas ocupações as mais antagônicas: ela está na medicina e na engenharia; na gastronomia e nas artes; e também no alto de um poste, desfazendo um curto-circuito em meio a fios de alta tensão. Muitas são arrimo de famíla, e acumulam tripla jornada de trabalho, ironicamente invejando algumas de suas antepassadas que à sua época viviam por vezes em reconfortante indolência. O fato é que a modernidade equiparou homens e mulheres não apenas diante daquilo que a independência traz de bom, mas também na obrigação de produzir e sobreviver em um mundo que cobra de todos, sem discriminação de sexo, a lei do superesforço, da capacitação e da competitividade.

                               Apesar das alardeadas conquistas femininas, e até da inegável realidade que projeta a mulher como maioria em determinadas áreas, em alguns casos responsável pela última palavra no que concerne às resoluções familiares, sobram resquícios de um tempo em que o segundo sexo era tratado com menos valia, dependente dos desejos e carências masculinos. A violência doméstica contra a mulher, em países como o Brasil, um dos campeões desse desolador fenômeno, faz-nos refletir muito ainda acerca da condição feminina e seus matizes. Por que mulheres apanham de seus companheiros, maridos, namorados em pleno século 21? Por que permanecem com seus conjuges vilentos mesmo sendo elas cidadãs trabalhadoras, capazes de se sustentar e a seus filhos? Se aceitam uma condição marcada pelo destrato e pela humilhação, possivelmente serão cúmplices do desrespeito. Leis a favor da mulher são criadas, assim como delegacias especiais para seu atendimento, mas apesar dos órgãos e instituições que abraçam a causa feminina, estatísticas comprovam anualmente o quanto a violência continua sendo praticada.

                               Há muito de desolador ao se observar mulheres que, após tanta luta em prol de sua libertação e de sua redenção, apresentam um perfil sexista, comportando-se como fêmeas acéfalas que de melhor a oferecer têm apenas seu corpo esculpido pelas leis estetas contemporâneas, as quais as igualam num mesmo perfil desfrutável aos olhos masculinos, aliás algo bastante retrógrado, posto que há muitas décadas esse era igualmente o mesmo intento feminino. Adolescentes subjugadas por seus namorados, aceitando contentar-se com um macho inelegante e arredio à conveniência dos bons tratos, e ainda competindo por ele com outras jovens de semelhante índole, é algo bem triste de se ver__ seguramente, um retocesso histórico. O machismo contra o qual se luta há séculos não pode retornar agora na figura feminina, sob pena de termos uma sociedade que agoniza em meio ao desespero e insatisfação da mulher, como já foi visto em outras eras.

                               Cabe a mulher que é mãe de meninas e meninos educar seus filhos para uma vida de plenitude e prazeres possíveis, em que ambos os sexos possam ser donos das prórprias escolhas, tratando-se com o respeito inerente à condição civilizada; cabe a essa mãe, principalmente, exercitar entre seus rebentos a prática da autoestima, e no caso da educação de meninas, em especial, fazê-las entender o quanto seu corpo tem de sagrado ao passo ser o templo que as moverá pelos caminhos à frente em uma sociedade pouco afeita aos fracos, sem comiseração com quem quer que seja.

                                 



Escrito por Sílvia Abrahão às 14h31
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